Natura apresenta balanço animador, com lucro acima do esperado e forte alta nas ações, mas mercado mantém cautela devido a desafios persistentes.
O mercado financeiro reagiu positivamente ao mais recente balanço da Natura, impulsionando as ações da companhia a liderarem as altas do Ibovespa. O lucro divulgado superou as expectativas, oferecendo um respiro para a multinacional de cosméticos.
No entanto, essa melhora pontual não apaga os desafios que a empresa ainda precisa superar. Analistas e investidores observam atentamente três pontos cruciais que determinarão a consolidação da recuperação da Natura no médio e longo prazo.
Apesar do otimismo gerado pelos resultados recentes, a trajetória da Natura ainda é vista com cautela pelo mercado. A empresa precisa demonstrar consistência na superação de seus gargalos para convencer definitivamente os investidores de que a maré virou. Conforme divulgado por fontes do mercado financeiro, a empresa tem pela frente uma jornada que exigirá atenção e estratégia para garantir seu futuro.
Alavancagem: Dívidas sob controle, mas ainda em observação
Um dos principais pontos de atenção é a alavancagem, que se refere ao nível de endividamento da empresa. A Natura conseguiu reduzir significativamente esse indicador no quarto trimestre de 2025, caindo de 2,5 vezes para 1,5 vez. Na prática, isso significa que a companhia precisaria de menos tempo para quitar suas dívidas com o caixa disponível.
Essa melhora na alavancagem foi parcialmente impulsionada pela venda de ativos, e a dívida líquida da empresa encerrou o período em R$ 3,5 bilhões. Contudo, apesar da redução, o patamar ainda é considerado elevado em um cenário de juros altos, o que mantém o risco financeiro no radar. A expectativa de queda na taxa Selic pode aliviar a pressão sobre o setor de varejo e consumo, mas a operação da Natura segue sob escrutínio.
Vendas em Queda e o Desafio da Avon
Outro ponto que gera preocupação é a fraqueza nas vendas. No quarto trimestre de 2025, a receita da Natura no Brasil registrou uma queda de 4,8% em comparação com o mesmo período do ano anterior, totalizando R$ 3,77 bilhões. A pressão nesse resultado veio, em grande parte, do desempenho da Avon, marca adquirida pela companhia em 2020.
E é justamente a Avon o terceiro grande desafio. A marca, que se aproxima dos 140 anos em 2026, tem enfrentado perda de relevância e problemas operacionais. O processo de reestruturação da Avon está em andamento, mas ainda não há sinais claros de consolidação de sua recuperação, o que impacta diretamente os resultados gerais da Natura.
Análise de Mercado: Tom Neutro com Perspectivas de Melhoria
Diante desses desafios, o tom do mercado em relação ao futuro da Natura permanece majoritariamente neutro. Analistas do BTG Pactual destacaram que, apesar da simplificação da estrutura e do desempenho operacional melhor que o esperado, a recuperação das margens, a redução da alavancagem e a retomada das vendas na América Latina continuam sendo pontos a serem monitorados de perto. A casa mantém uma recomendação neutra para as ações, com preço-alvo de R$ 12.
O Santander, por sua vez, avaliou positivamente a disciplina da gestão na redução de despesas e os ganhos de eficiência em custos gerais e administrativos, além da queda contínua nos custos de transformação. Esses gastos estão associados à reestruturação operacional e corte de despesas, visando aumentar a lucratividade e integrar a Avon. A expectativa é que esses custos se aproximem de zero em 2026. A recomendação do Santander também é neutra, com preço-alvo de R$ 9,70.
O Itaú BBA, embora com recomendação de compra, ressalta a pressão sobre as receitas no Brasil e a expectativa de que as iniciativas comerciais ganhem tração de forma gradual. Essa incerteza sobre a receita no Brasil tem levantado dúvidas no mercado e reduzido o entusiasmo com a companhia para o início de 2026. No entanto, o BBA vê um caminho plausível para a melhora de margens em 2026, apesar de um primeiro trimestre potencialmente mais desafiador.
Destaques Positivos e Geração de Caixa
Entre os pontos positivos do balanço, o Ebitda operacional da Natura ficou 35% acima das projeções. A empresa também registrou um lucro líquido de R$ 186 milhões, superando em cerca de 13% as expectativas do mercado e revertendo a previsão de prejuízo de alguns analistas. Além disso, a companhia demonstrou forte capacidade de geração de caixa, com um fluxo de caixa livre de R$ 250 milhões no trimestre, impulsionado pela melhora na performance operacional.