Gigante da Celulose Arauco Investe R$ 15 Bilhões no Brasil e Luta Contra Rebaixamento em Meio à Crise do Setor

Arauco enfrenta desafio duplo: expansão ambiciosa no Brasil e manutenção do status de crédito em cenário adverso para a celulose.

A Arauco, terceira maior produtora global de celulose, está no centro de uma estratégia audaciosa que envolve um investimento bilionário no Brasil e uma corrida contra o tempo para evitar o rebaixamento de sua classificação de crédito. A empresa aposta alto na conclusão da megafábrica Sucuriú, em Mato Grosso do Sul, que promete ser a maior do mundo no setor.

Este movimento ocorre em um momento delicado para a indústria de celulose, marcado pela desaceleração e queda nos preços. A Arauco, no entanto, confia que o aumento futuro na produção compensará os riscos atuais, enquanto prepara um plano B caso os preços não se recuperem.

A decisão da Arauco de seguir adiante com o projeto Sucuriú, orçado em US$ 4,6 bilhões, já impactou suas finanças, elevando o endividamento. Agências de risco como Standard & Poor’s e Fitch monitoram de perto a situação, com a S&P já tendo colocado a empresa em observação negativa.

O Projeto Sucuriú e Seus Impactos Financeiros

O investimento recorde da Arauco ultrapassa os US$ 3 bilhões em 2024 e cerca de US$ 2 bilhões em 2025, com a maior parte direcionada à planta brasileira. A expectativa é que, até 2028, com a fábrica em plena operação, a Arauco quase dobre sua participação no mercado de celulose de fibra curta, alcançando cerca de 10%. Contudo, a construção da Sucuriú já elevou a dívida líquida da empresa para 5,15 vezes o Ebitda no ano passado.

Essa alavancagem preocupou agências de rating. A Standard & Poor’s Global Ratings colocou a Arauco em observação negativa em novembro, um passo que pode levar a um rebaixamento para grau especulativo. A Fitch, que classifica a Arauco como BBB, também revisou a empresa negativamente em outubro de 2024.

Estratégias para Evitar o Rebaixamento

Para afastar o risco de se tornar um “anjo caído” – perdendo o grau de investimento –, a Arauco implementou medidas. Uma delas foi a venda de US$ 840 milhões em títulos de dívida híbridos em 2025, que ajudam a contabilizar parte do capital como patrimônio, aliviando a pressão sobre o endividamento. Além disso, a empresa conta com o forte apoio financeiro de sua controladora, a Empresas Copec.

O diretor financeiro da Arauco, Gianfranco Truffello, assegura que a empresa possui um “conjunto de medidas de contingência” e que o projeto avança dentro do cronograma e orçamento. Ele destaca que as agências de risco tendem a olhar além do endividamento atual, focando no salto de produção futuro que a Sucuriú proporcionará.

Preços da Celulose Pressionam Resultados

Apesar das estratégias, o cenário de preços baixos da celulose é um obstáculo significativo. O preço médio do produto caiu mais de 15% desde o pico em maio de 2024 até o final do ano passado, impactando diretamente o lucro da Arauco, que despencou mais de 90% em 2024. A S&P prevê uma recuperação mais lenta do mercado, o que pode manter a alavancagem da Arauco em níveis elevados.

Truffello admite que a alavancagem pode continuar a aumentar neste ano devido aos gastos com a Sucuriú, com o fluxo de caixa livre permanecendo negativo durante a construção. O executivo mantém contato constante com as agências de risco para garantir que a Arauco não siga o caminho de outras empresas do setor que foram rebaixadas anteriormente.

Perspectivas e Oportunidades Futuras

O projeto Sucuriú está aproximadamente pela metade de sua conclusão, com todo o financiamento assegurado. A nova fábrica tem o potencial de aumentar o volume de vendas de celulose em 67% e gerar cerca de US$ 1 bilhão em Ebitda adicional, segundo analistas do BTG Pactual. Essa expansão representa a primeira grande nova usina no setor desde a entrada em operação do projeto Cerrado da Suzano em julho de 2024.

Apesar do otimismo com a capacidade produtiva futura, a Arauco ainda precisa navegar pelas incertezas do mercado. Atrasos ou estouros de orçamento na construção da Sucuriú, assim como a volatilidade nos preços da celulose, continuam sendo fatores de risco. A empresa, contudo, afirma utilizar premissas conservadoras de preço, estimando uma média de US$ 600 por tonelada.