Solange Srour, do UBS, avalia que Banco Central corre riscos ao iniciar corte de juros em cenário de incerteza, com potencial impacto na inflação e na confiança do mercado.
O Banco Central do Brasil (BC) deu o primeiro passo em um ciclo de corte na taxa básica de juros, a Selic, reduzindo-a para 14,75% ao ano. No entanto, essa decisão, tomada em um contexto de conflito no Oriente Médio e desafios fiscais internos, levanta preocupações entre especialistas.
Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, expressou sua opinião de que o BC poderia ter optado por adiar o início do ciclo de afrouxamento monetário. A economista argumenta que a persistência da Guerra do Irã e seus efeitos sobre os preços de commodities como petróleo e energia criam um cenário de inflação “contratada”.
Segundo Srour, o mercado interpretou o comunicado do Copom como “dovish”, ou seja, indicando uma postura mais flexível e menos cautelosa. Essa comunicação, na visão da economista, pode levar à desancoragem das expectativas de inflação, um efeito cascata que pode forçar o BC a reverter sua estratégia e aumentar os juros novamente.
Risco de ter que parar o corte de juros
A economista Solange Srour, do UBS, alertou que o Banco Central pode ter iniciado o ciclo de corte da Selic em um momento arriscado. Ela avalia que a guerra no Irã pode prolongar o choque inflacionário nos preços de energia e insumos, como fertilizantes. Se o conflito se estender, o preço do petróleo pode se manter elevado, empurrando a inflação deste ano para mais perto de 5% ou até acima.
Srour ressalta que, mesmo com o fim do conflito, os danos à infraestrutura produtiva de petróleo e gás na região podem ter efeitos duradouros na oferta. Isso significa que a recuperação dos níveis de produção pode levar meses, prolongando o impacto inflacionário. O risco, segundo ela, é o BC ter que interromper o ciclo de cortes de juros precocemente, talvez após um corte de 0,50 ponto percentual.
Comunicação “dovish” e desancoragem de expectativas
A diretora do UBS GWM destacou que o mercado interpretou o comunicado do último Copom como mais “suave” ou “dovish”. O BC não apenas cortou os juros, mas também evitou sinalizar uma possível pausa. Essa mensagem pode indicar ao mercado que os cortes continuarão, caso a situação permaneça estável, ou até mesmo se intensifiquem se houver melhora.
Srour considera essa comunicação um tanto quanto arriscada, especialmente se o objetivo do BC é realmente atingir a meta de inflação. Uma comunicação menos cautelosa pode levar à desancoragem das expectativas de inflação, onde agentes de mercado passam a projetar preços mais altos no futuro. Isso representa uma perda de confiança na capacidade da política monetária de controlar a alta dos preços, criando um ciclo vicioso inflacionário.
Desafios fiscais como próximo foco de atenção
Mesmo com a normalização do cenário internacional e a continuidade dos cortes de juros, o desequilíbrio fiscal interno voltará a ser um ponto de atenção. Srour prevê que, se não houver uma clara inversão na política fiscal e uma “âncora fiscal” para estabilizar a dívida, o país pode enfrentar uma crise de confiança.
Nesse cenário, a economista projeta uma abertura maior da curva de juros, depreciação do câmbio e aumento da aversão ao risco nos mercados. Essa crise de confiança levaria a mais inflação e desaceleração econômica, forçando o BC a subir os juros novamente. Esse risco, segundo Srour, se tornará mais presente à medida que as eleições se aproximam.
Caminho para evitar a crise de confiança
Para evitar um cenário de crise de confiança, Srour enfatiza a importância de os candidatos com maiores chances de vitória sinalizarem compromisso com a questão fiscal. É fundamental que o futuro presidente entenda que não haverá muito tempo para ajustes e que as medidas precisam ser efetivas e inovadoras, indo além do “mais do mesmo”, para restaurar a confiança do mercado.
O UBS GWM, em seu cenário base, ainda projeta uma probabilidade maior de os efeitos do conflito no Irã serem transitórios, permitindo a continuidade dos cortes. Nesse cenário mais otimista, o preço do petróleo voltaria a patamares mais baixos e a situação se normalizaria. A projeção é que a Selic termine o ano entre 12% e 12,5% ao ano, embora um ciclo de corte menor que três pontos percentuais já represente um espaço mais restrito do que o mercado antecipava antes da guerra.
