A queda da patente da semaglutida, princípio ativo de medicamentos como Ozempic e Wegovy, abre um novo capítulo no mercado farmacêutico brasileiro, impulsionando uma disputa acirrada por um segmento que já movimenta bilhões.
A decisão de permitir a produção de genéricos e similares de medicamentos à base de semaglutida no Brasil marca o fim da exclusividade da Novo Nordisk e inaugura um cenário promissor para a indústria farmacêutica nacional. O mercado de GLP-1, que engloba tratamentos para diabetes e emagrecimento, está prestes a se expandir significativamente.
Estimativas do BTG Pactual indicam que o setor, que movimentou cerca de R$ 10 bilhões em 2025, pode alcançar a marca de R$ 15,6 bilhões em 2026. Essa projeção otimista é impulsionada pela expectativa de preços mais competitivos e maior acesso a esses tratamentos.
Apesar da queda da patente, a chegada de novas ‘canetas’ às farmácias não será imediata. O processo depende da aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que já analisa uma fila de pedidos de registro de medicamentos sintéticos ligados à semaglutida. Conforme informações divulgadas, há pelo menos nove petições sob análise.
EMS lidera a corrida com investimento em produção local
A farmacêutica EMS surge como uma das empresas mais adiantadas nesse processo. A companhia, que investiu mais de R$ 1,2 bilhão em sua planta de peptídeos em Hortolândia (SP), com capacidade para produzir até 20 milhões de canetas anualmente, já submeteu o pedido de registro de seu medicamento à base de semaglutida à Anvisa.
A empresa busca alavancar a experiência adquirida com a produção local de liraglutida, princípio ativo de medicamentos como Olire e Lirux, lançados em agosto do ano passado. Essa expertise, segundo a EMS, pode encurtar o tempo de desenvolvimento e comercialização da semaglutida assim que o aval regulatório for concedido.
A expectativa do mercado é que a autorização da Anvisa ocorra nos próximos meses. Pessoas próximas aos planos da EMS indicam a produção de cerca de 1 milhão de canetas entre julho e dezembro deste ano, com um preço estimado entre R$ 500 e R$ 600, significativamente abaixo dos valores atuais do Ozempic, que variam entre R$ 963,00 e R$ 1.300,00.
Mercado de GLP-1: A promessa de preços até 70% mais baixos
A entrada de genéricos e similares tem o potencial de adicionar R$ 3,6 bilhões ao mercado brasileiro de GLP-1 já em 2026, segundo o BTG Pactual. A consultoria L.E.K. Consulting avalia que a perda de exclusividade da semaglutida pode reduzir os custos em torno de 70%, tornando o tratamento mais acessível para a população, que hoje alcança apenas cerca de 2% dos adultos no país.
A L.E.K. Consulting prevê um mercado de GLP-1 em duas velocidades no Brasil. De um lado, a semaglutida mais barata ampliaria o acesso e o volume de vendas. De outro, produtos de marca e de nova geração, como a tirzepatida (princípio ativo do Mounjaro, da Eli Lilly), manteriam um segmento premium, focado em maior eficácia e conveniência.
Essa divisão já se reflete nas farmácias. A RD Saúde reportou um ganho de 1,7 ponto percentual de participação de mercado em 2025, com os GLP-1 se tornando um vetor relevante de crescimento. O mercado brasileiro de GLP-1 pode chegar a quase R$ 20 bilhões em 2026, com a tirzepatida desempenhando um papel importante nesse avanço, conforme estimativas do UBS.
Mercado paralelo e impactos em outros setores
A disparidade de preços entre Brasil e Paraguai tem estimulado um mercado paralelo, com compras em viagem e importação informal. No Brasil, o Mounjaro pode custar entre R$ 1.400 e R$ 3.000, enquanto no Paraguai, a mesma dose pode custar perto de R$ 770, abrindo brechas para transações fora do circuito regulado.
A popularização dos GLP-1 também impacta outros setores. Academias, alimentos proteicos, nutrição funcional e vestuário esportivo podem se beneficiar, enquanto snacks, bebidas açucaradas e consumo em bares tendem a sentir a pressão. Supermercados podem ver uma mudança no mix de vendas, com maior foco em alimentos frescos e proteínas.
O Assaí, por exemplo, já percebe a queda no volume de vendas de bebidas e doces, e planeja inaugurar 25 farmácias para vender vitaminas, suplementos e outros medicamentos com demanda crescente. Na moda, a perda de peso pode acelerar a renovação de guarda-roupa, afetando tamanhos e aumentando o risco de erro no estoque.
