Padel, Cafés e Restaurantes: A Nova Receita de Luxo para Vender Imóveis de Alto Padrão em SP

Estandes de Vendas de Imóveis de Luxo Viram Espaços de Convivência com Esporte e Gastronomia

Esqueça as maquetes e os corretores em ternos. O mercado imobiliário de alto padrão em São Paulo está passando por uma revolução, transformando estandes de vendas em verdadeiros centros de experiência. A nova estratégia envolve a oferta de atividades que vão muito além da compra de um imóvel, apostando em um estilo de vida sofisticado.

Quadras de padel, cafeterias gourmet e restaurantes badalados estão se tornando o novo chamariz para atrair clientes que buscam exclusividade e conveniência. Essa abordagem visa capturar um público que, de outra forma, não se interessaria por um plantão de vendas tradicional.

A ideia é clara: criar um destino, e não apenas um ponto de passagem. Ao oferecer experiências de lazer e gastronomia, as incorporadoras conseguem engajar potenciais compradores de forma mais orgânica e menos invasiva, conforme divulgado pela mídia especializada.

O Padel como Novo Queridinho dos Jardins

Na esquina da rua Augusta com a alameda Jaú, nos Jardins, um painel anuncia apartamentos de alto padrão. Abaixo, um convite: “Venha jogar padel com a gente”. O esporte, popular na Espanha e Argentina, virou febre entre as classes mais altas, competindo com o pickleball e o beach tennis.

Um estande da incorporadora italiana Netcorp exemplifica essa tendência. Uma quadra oficial de padel divide o espaço com a cafeteria Il Capitale Dolci. O objetivo é atrair pessoas que talvez não estejam procurando um imóvel de quase R$ 1,5 milhão, mas que, ao frequentar o local, podem se interessar pelo empreendimento.

“Nós tentamos trazer esse cliente que não estava à procura de um imóvel”, afirma Miele Abrão, diretor comercial da Tecnisa. A empresa tem investido na oferta de comércios e serviços em seus pontos de venda, transformando terrenos ociosos em espaços de convivência que atraem um público diversificado.

Experiências Gastronômicas que Vendem Imóveis

O Reserva Rooftop, um restaurante da Tecnisa no bairro planejado Jardim das Perdizes, é um exemplo de sucesso. “O cliente vem para uma experiência gastronômica e nós conseguimos impactá-lo”, explica Abrão. A estratégia se assemelha à de grifes de luxo que oferecem cafés para atrair clientes, mesmo que estes não possam comprar seus produtos.

No mercado imobiliário, a lógica é invertida: o cliente vai ao restaurante e, consequentemente, descobre o empreendimento. O Reserva Rooftop atrai de 5 mil a 7 mil pessoas por mês para o Jardim das Perdizes, permitindo que os visitantes contemplem o parque do empreendimento, um forte argumento de venda, conforme Bruno Nuciatelli, diretor de marketing da Tecnisa.

A ideia é que o visitante tenha, de forma antecipada, a experiência de morar no local. Jantares ou celebrações no restaurante expõem as pessoas às maquetes e aos atrativos do empreendimento sem a pressão de uma abordagem de venda direta. Nuciatelli resume: o espaço deixa de ser um ponto de passagem e se torna um ponto de destino.

Outras Incorporadoras Seguem a Tendência de Mercado

A Tecnisa não está sozinha. Em 2021, a Helbor transformou o antigo Octavio Café na Faria Lima em um showroom que reunia maquetes, o Buteco do Jacquin, marcas de luxo como BMW e Jaguar, e serviços financeiros. O CEO da Helbor, Henry Borenstein, justificou que o modelo tradicional de estande era “chato”.

No ano passado, a Gafisa investiu na abertura de uma boulangerie no projeto Allard Oscar Freire, nos Jardins, em parceria com o empresário Alexandre Allard. O Mata Café By Bachour atraiu um público recorrente, impulsionando o interesse pelo empreendimento.

Em Goiânia, a Terral Incorporadora levou o conceito adiante com o projeto “Lugar de Encontros”, que inclui cafeteria, clube do livro e workshops, funcionando como um centro de convivência para o bairro.

O “Experiential Retail” é o Futuro das Vendas Imobiliárias

Essa tendência tem paralelos nos Estados Unidos, onde o padel é chamado de “a nova cenoura para atrair compradores”. Carlos Rosso, da Rosso Development, relatou ter vendido 225 de 228 unidades de um empreendimento em Miami em menos de um ano, impulsionado por uma quadra de pickleball interna e karaokê.

Em Nova York, o 111 West 57th Street, um dos endereços mais exclusivos de Manhattan, instalou uma quadra privada de padel como diferencial de vendas. Clubes de padel nos EUA cresceram 52% em relação ao ano anterior, segundo a consultoria Misitrano.

O movimento faz parte do “experiential retail”, espaços físicos que oferecem algo que não se encontra em uma tela. Em Los Angeles, quadras de pickleball e minigolfe ocuparam lojas tradicionais, e em shoppings centers, a composição de inquilinos migrou para uma combinação de gastronomia, esporte e entretenimento.

A Estratégia é Caso a Caso, Mas o Resultado é Claro

A decisão de adotar esse modelo no Brasil passa por uma análise de localização. “A tomada de decisão se dá muito pela localização”, explica Abrão. Em bairros nobres com carência de espaços esportivos ou de lazer, oferecer uma quadra de padel ou um restaurante pode ser o diferencial crucial.

“Hoje isso [o estande de vendas] não é mais uma commodity”, afirma Abrão. “Somos obrigados a trazer algum diferencial para que o produto venda mais que o do vizinho.” A incorporadora já busca dar vida ao terreno e ao bairro antes mesmo de construir, atraindo um fluxo maior de pessoas para o espaço.

A pergunta que persiste é se o modelo é escalável para imóveis de menor renda ou cidades menores. Os executivos da Tecnisa acreditam que sim, desde que a oferta seja regionalizada e faça sentido para o público local. O estande de vendas tradicional, com ar-condicionado gelado e café de máquina, não é mais suficiente para atrair o comprador moderno.