Fim do ‘Trade da Deflação’: Juros na China Podem Subir e Impactar Mercados Globais

O mercado de títulos públicos da China está em um ponto de virada, com analistas prevendo o fim do “trade da deflação” e uma potencial alta nos juros. Pressões inflacionárias crescentes e dados econômicos positivos sinalizam um cenário diferente do que dominou as negociações nos últimos anos.
A expectativa é que os rendimentos (yields) dos títulos de referência de 10 anos, atualmente em cerca de 1,8%, possam romper a faixa de negociação restrita e avançar rumo a 2% ou mais ainda neste ano. Essa mudança reflete um sentimento de mercado que se reorienta após uma série de indicadores econômicos mais fortes que o esperado, como a retomada do crescimento e a desaceleração na queda dos preços no atacado.
Essa transição na China, se confirmada, pode ter repercussões significativas em outros mercados emergentes. A dissipação do “impulso desinflacionário” chinês, que ajudou a conter a inflação global, somada às altas no preço do petróleo, pode levar a um cenário de juros mais elevados em diversas economias. As informações e dados são baseados em análises de mercado divulgadas por veículos especializados.

“O trade da deflação chegou a um ponto de inflexão”, afirma economista

Lynn Song, economista-chefe para a Grande China no ING Bank, destaca que a situação atual não é sustentável para uma economia com projeção de crescimento de cerca de 4% na próxima década. Para ela, “não é normal que uma economia com expectativa de crescer cerca de 4% na próxima década tenha yields de 10 anos abaixo de 2%”.

Corretoras locais, como a Kaiyuan Securities, são ainda mais assertivas em suas projeções. A empresa prevê que o yield de referência retorne para a faixa de 2% a 3% ainda neste ano, impulsionado pelo aumento da inflação. Essa perspectiva é sustentada por dados recentes que indicam alta nos preços ao consumidor, moderação na deflação industrial, um boom exportador e vendas no varejo mais fortes.

O mercado de swaps de juros na China também corrobora essa visão, mostrando uma redução nas expectativas de novos afrouxamentos monetários por parte do Banco Popular da China (PBOC). Bancos globais como Goldman Sachs e ANZ já revisaram suas projeções, retirando ou reduzindo as expectativas de cortes de juros pelo PBOC e elevando as previsões de inflação para a China, em parte devido ao choque do petróleo decorrente do conflito no Oriente Médio.

Mercados emergentes sentem o impacto da mudança

A mudança no mercado de títulos não se restringe à China. Em março, o rendimento médio dos títulos em moeda local de mercados emergentes atingiu o patamar mais alto em quase dois anos. Países importadores de energia, como Polônia, África do Sul e Tailândia, registraram fortes ondas de venda, com yields saltando entre 50 e 100 pontos-base.

Adam Marden, cogestor da estratégia Dynamic Global Bond na T. Rowe Price, argumenta que o “impulso desinflacionário” vindo da China está se dissipando. Com a alta do petróleo adicionando pressões inflacionárias, ele prevê maior probabilidade de yields mais elevados e curvas de juros mais achatadas globalmente, um cenário desafiador para os bancos centrais.

Desafios e sinais de consolidação da alta

Apesar da tendência de alta nos yields, existem desafios. Um fim rápido da guerra no Irã poderia aliviar os preços do petróleo, e uma nova fraqueza na demanda doméstica chinesa também é um fator de incerteza. O Morgan Stanley, por exemplo, avalia que a recuperação da inflação na China “dificilmente será sustentada”, projetando que o índice de preços ao produtor volte a uma deflação moderada em 2027.

No entanto, sinais de consolidação são evidentes. Empresas de diversos setores, de químicos a fabricantes de destilados, anunciaram reajustes de preços. O mercado imobiliário chinês também mostra sinais de estabilização, com retomada da atividade em março. Analistas, incluindo os do Citigroup e da Huatai Securities, acreditam que o índice de preços ao produtor da China voltará ao terreno positivo em breve.

Jeffrey Zhang, estrategista do Crédit Agricole CIB, afirma que “a inflação em alta na China provavelmente será um ponto de virada para o mercado de títulos”. A tendência de reinclinação da curva de juros pode se acelerar se os próximos indicadores de inflação confirmarem que as pressões de preço do choque do petróleo superam as preocupações com a demanda.