Efeito Ozempic e Copa do Mundo: JBS prevê otimismo em 2026 com demanda proteica em alta e expansão nos EUA

JBS mira 2026 com otimismo impulsionado pelo “efeito Ozempic” e Copa do Mundo, mesmo com margens em queda

A JBS, gigante do setor de alimentos, projeta um cenário otimista para 2026, impulsionado por duas grandes tendências: o aumento do consumo de proteínas, estimulado pelo uso de medicamentos como o Ozempic, e a expectativa de maior demanda durante a Copa do Mundo. Essa visão positiva se contrapõe a uma queda nas margens em algumas de suas divisões, especialmente a de carne bovina nos Estados Unidos.

A empresa capitaliza no fenômeno “protein crazy”, onde a demanda por proteínas cresce, enquanto a JBS já possui uma base sólida nesse mercado. Paralelamente, a Copa do Mundo, sediada nos Estados Unidos, México e Canadá, representa uma aposta significativa para impulsionar a economia e o consumo no Brasil.

O otimismo da JBS é detalhado pelo seu CFO, Guilherme Cavalcanti, que destaca a força da demanda por proteína, mesmo com o aumento de preços. A estratégia da empresa envolve fortalecer suas marcas no mercado doméstico, com investimentos em novos formatos de açougues e linhas de produtos de maior valor agregado, além de expandir sua capacidade produtiva. As informações são da entrevista concedida por Cavalcanti ao InvestNews.

A onda “protein crazy” e o “efeito Ozempic” impulsionam a demanda por proteínas

O mercado de alimentos nos Estados Unidos observa uma corrida por produtos proteicos, com empresas como Coca-Cola, Starbucks, Pepsi e Conagra lançando novas bebidas e alimentos enriquecidos com proteína. Essa tendência é amplificada pelo uso crescente de medicamentos emagrecedores à base de GLP-1, como o Ozempic e o Wegovy. Mais de 15 milhões de americanos já utilizam esses medicamentos, com expectativa de dobrar esse número nos próximos anos.

Esses medicamentos promovem a sensação de saciedade e levam à redução do consumo geral de alimentos, mas com uma priorização do consumo de proteína para evitar a perda de massa magra. No Brasil, a queda da patente da semaglutida, princípio ativo de medicamentos análogos ao GLP-1, abre caminho para genéricos mais acessíveis e, potencialmente, uma expansão semelhante no consumo de proteínas.

A demanda por proteína animal se mantém aquecida mesmo com o aumento de preços. Nos EUA, o preço da carne moída subiu de cerca de US$ 4 para US$ 6,75 por libra antes da pandemia. O peito de frango foi de US$ 3 para US$ 4,14, e a carne de porco, de US$ 4 para US$ 4,50. Conforme o CFO da JBS, Guilherme Cavalcanti, “a demanda por proteína está muito forte. Mesmo com o aumento de preço, as pessoas continuam comprando”.

Copa do Mundo e o mercado doméstico brasileiro como pilares de otimismo

A JBS investe em marketing para capitalizar o momento, patrocinando a transmissão da Copa do Mundo pelo SBT com suas marcas Friboi e Seara. O Mundial, que ocorre de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, México e Canadá, é visto como um evento que movimenta a economia. “Copa do Mundo sempre movimenta a economia e vai ser uma aposta importante”, afirma Cavalcanti.

O otimismo com o mercado doméstico brasileiro é reforçado pela situação econômica favorável, com o desemprego em níveis baixos. Na Convenção de Supermercados no Rio de Janeiro, a Nielsen apresentou dados que mostram que lojas com o programa Friboi+ registraram faturamento 40% maior do que aquelas com açougue tradicional. A Seara, por sua vez, expande suas linhas de maior valor agregado, com produtos para air fryer e clean label apresentando crescimento acelerado.

Os investimentos em novas plantas da JBS no Brasil devem ser concluídos ao longo de 2026, adicionando entre 10% e 13% de capacidade produtiva. Essa expansão visa atender à crescente demanda por produtos de maior valor agregado e fortalecer a posição da empresa no mercado nacional.

Desafios no rebanho bovino americano e a estratégia de diversificação da JBS

Apesar do otimismo, a JBS enfrenta o desafio do encolhimento do rebanho bovino americano, uma situação que deve persistir por mais um ano e meio a dois anos, segundo estimativas de Cavalcanti. O início de 2026 foi particularmente desafiador para a indústria americana de carne bovina, com margens negativas projetadas por analistas do BTG Pactual e Bank of America.

Para mitigar esses efeitos, a JBS aposta na diversificação geográfica. Enquanto os EUA enfrentam escassez, a Austrália vive um momento de rebanho recorde, e o Brasil apresenta um potencial de produtividade ainda pouco explorado. Com 220 milhões de cabeças, o Brasil produz quase o mesmo volume de carne que os EUA, que possuem 84 milhões de cabeças.

“Se o rebanho dos Estados Unidos não voltar para os níveis do passado, isso vai significar mais exportação do Brasil e da Austrália”, projeta Cavalcanti. Essa estratégia de diversificação permite à JBS contornar as dificuldades pontuais em mercados específicos e garantir o suprimento para atender à demanda global.

Frango como risco e a busca por valorização no mercado de capitais

Enquanto a escassez de boi nos EUA é um problema conhecido, o frango surge como um risco no radar dos analistas. As margens excepcionalmente boas nos últimos dois anos, impulsionadas por problemas genéticos que limitaram a oferta, tendem a se normalizar com a dissipação desses gargalos. Analistas do BTG Pactual e Bank of America projetam quedas nas margens da Pilgrim’s e da Seara.

Paralelamente, a JBS avança em sua agenda para destravar valor no mercado de capitais. Após a listagem nos EUA, a empresa busca reduzir o desconto em seus múltiplos em relação a concorrentes como Tyson e Smithfield. A entrada em índices como o Russell 2000 e, a longo prazo, o S&P 500, são passos cruciais para aumentar a liquidez e atrair mais investidores.

A empresa encerrou o quarto trimestre de 2025 com US$ 4,8 bilhões em caixa e uma estrutura de dívida sólida. A JBS anunciou o pagamento de dividendo de US$ 1,0 por ação para junho, com um yield médio estimado de 7,7% entre 2026 e 2030. “A nossa prioridade agora é consolidar a listagem, entrar nesses índices e fechar mais esse gap no múltiplo”, afirma Cavalcanti, indicando que o foco é a valorização no mercado de capitais antes de uma nova onda de expansão.