A construção civil brasileira está passando por uma transformação impulsionada pela industrialização, com ‘fábricas de casas’ que operam sem a necessidade de pedreiros tradicionais. Este novo modelo promete agilidade e economia, mas ainda esbarra em barreiras culturais e regulatórias.
Enquanto muitos canteiros de obra em São Paulo ainda utilizam métodos artesanais que remontam a décadas passadas, uma nova realidade emerge em fábricas no ABC paulista e em Santa Catarina. Nestes locais, jovens montadores produzem paredes inteiras com tecnologia embarcada, em um ambiente controlado e eficiente.
Este avanço representa uma mudança significativa em um setor onde, segundo David Fratel, diretor do Sinduscon-SP, 70% das obras ainda operam de forma artesanal, gerando até 30% de desperdício de material. A escassez de mão de obra qualificada, especialmente pedreiros, acelera a busca por soluções inovadoras.
Ricardo Mateus, fundador da Brasil ao Cubo, destaca que a tecnologia é o principal diferencial para aumentar a produtividade. Ele compara a lógica da construção industrializada à linha de montagem de Henry Ford e ao Lean Manufacturing da Toyota, com postos de trabalho definidos, instruções padronizadas e cronoanálise por etapa para eliminar desperdícios. As informações são do InvestNews.
Brasil ao Cubo: Montagem modular para agilizar a entrega de moradias
Na fábrica da Brasil ao Cubo, em Tubarão (SC), módulos de 55 metros quadrados são produzidos em uma linha com dez postos de trabalho. Cada etapa é cronometrada e conta com instruções claras, permitindo que novos funcionários aprendam qualquer função em apenas 15 dias, sem necessidade de experiência prévia. “Deixamos de olhar para a construção civil como obra e começamos a enxergar como manufatura”, afirma Mateus.
Os módulos saem prontos da fábrica, completos com banheiro, porcelanato, pintura e mobília. Eles são transportados e empilhados no local de destino por guindaste, formando edifícios de até oito pavimentos. A empresa, fundada em 2016, recebeu investimentos significativos da Gerdau e da Dexco, o que permitiu reduzir o custo de produção por metro quadrado de R$ 9 mil para menos de R$ 3 mil nos últimos três anos.
A Brasil ao Cubo, que já entregou obras em 17 estados, incluindo um prédio para o Hospital Albert Einstein em São Paulo em 150 dias, opera com uma eficiência notável. Eles conseguem entregar 20 mil moradias com 6 mil trabalhadores, enquanto incorporadoras convencionais necessitariam de 15 mil para a mesma tarefa.
Steel Corp: Paredes de aço montadas em tempo recorde
Em Santo André (SP), a Steel Corp opera com uma lógica semelhante, mas utilizando um método diferente. A empresa fabrica paredes completas a partir de bobinas de aço, que são dobradas em perfis estruturais e montadas com placas de cimento e isolamento térmico. A parede sai pronta da fábrica e é encaixada no terreno, com capacidade para montar uma casa em 24 horas no canteiro. Daniel Gispert, presidente da Steel Corp, aponta que a mão de obra representa apenas 15% do custo total.
A evolução dos projetos estruturais da Steel Corp reduziu o consumo de aço de 55 para 17 quilos por metro quadrado, mantendo a mesma resistência e com custo inferior à alvenaria. O ganho de velocidade é um argumento comercial forte: uma escola em parceria público-privada (PPP) que levaria um ano e meio no método convencional foi entregue pela Steel Corp em sete meses.
A empresa já realizou projetos como o estádio do Red Bull Bragantino e diversas escolas e creches em parceria com o poder público. A projeção de faturamento para 2026 é de R$ 600 milhões.
Barreiras para a disseminação da construção industrializada
Apesar dos impressionantes números da Brasil ao Cubo e da Steel Corp, a distância para o restante do setor é considerável. Três barreiras principais dificultam a adoção em larga escala: o alto investimento inicial exigido para a criação de fábricas, a falta de padronização imposta pelas prefeituras brasileiras, que criam normas de construção distintas para cada município, e a ausência de normas técnicas reconhecidas pela ABNT para alguns métodos construtivos.
A falta de padronização dificulta a produção em escala, como explica Gispert, que também preside o Comitê de Construção Industrializada do Sinduscon-SP. Para que os bancos financiem a compra de imóveis, o método construtivo precisa ter uma norma técnica validada. O light steel frame, técnica da Steel Corp, só obteve essa norma em 2020, o que antes impedia o financiamento.
Adicionalmente, a grade curricular das faculdades de engenharia civil e arquitetura no Brasil ainda não contempla a construção industrializada, levando a projetos que precisam ser adaptados. Clientes, por exemplo, muitas vezes projetam fundações pesadas para sistemas que são intrinsecamente mais leves, perdendo a oportunidade de economia. Para combater isso, a Steel Corp firmou parceria com a Cogna para incluir o tema nas salas de aula.
Apesar dos desafios, grandes incorporadoras do segmento popular, como MRV, Cury e Direcional, já demonstram interesse, visitando fábricas como a da Brasil ao Cubo. A dificuldade em contratar pedreiros é um fator que aumenta o interesse pela construção industrializada, segundo Gispert. Contudo, a cautela do setor persiste, com receio de que a execução em escala, com margens apertadas e complexidade operacional, possa gerar prejuízos, como ocorreu com a Alea, subsidiária da Tenda, que acumulou mais de R$ 500 milhões em perdas.
Ricardo Mateus estima que a construção industrializada levará de 10 a 15 anos para superar a convencional em volume, mas ele se mostra otimista: “O mundo só tem um caminho, e ele é industrializado.”
