Hapvida: Venda da Operação Sul pode gerar perda bilionária, mas ser a melhor saída para a empresa

Hapvida pode vender operação no Sul com prejuízo de até R$ 3 bilhões, mas a estratégia visa focar em mercados mais rentáveis.

A Hapvida, uma das maiores operadoras de planos de saúde do Brasil, enfrenta um cenário desafiador na região Sul do país. Após investir expressivos R$ 3,83 bilhões na montagem de sua operação nos últimos anos, a empresa agora busca vendê-la, o que pode resultar em uma perda contábil bilionária.

A estratégia de desinvestimento, assessorada pelo BTG Pactual, visa colocar a operação de volta nos trilhos financeiros. No entanto, as projeções de bancos de investimento indicam que a Hapvida receberá uma fração do valor investido, levantando preocupações sobre o retorno do capital aplicado.

A venda da operação no Sul, embora dolorosa financeiramente, é vista por analistas como uma medida necessária para a Hapvida. O objetivo é liberar capital, reduzir o endividamento e, principalmente, redirecionar o foco da gestão para mercados onde a empresa tem maior potencial de crescimento e rentabilidade. Conforme informações divulgadas por bancos de investimento, a Hapvida está avaliando a venda de ativos que incluem hospitais, clínicas e laboratórios na região.

O alto custo da expansão no Sul

A jornada da Hapvida na região Sul começou com aquisições vultosas. Em 2020, a Clinipam, atuante no Paraná e em Santa Catarina, foi adquirida por R$ 2,6 bilhões, quando contava com 330 mil beneficiários. No ano seguinte, o Centro Clínico Gaúcho, no Rio Grande do Sul, custou R$ 1,06 bilhão. A estes valores, somam-se os investimentos em hospitais próprios, elevando o desembolso total para R$ 3,83 bilhões.

Atualmente, o pacote à venda engloba uma estrutura considerável: cinco hospitais, 41 clínicas, 23 laboratórios e 481 mil vidas. Essa base de beneficiários, por si só, a posicionaria como a nona maior operadora de saúde do país. No entanto, a realidade do mercado sulista impõe desafios significativos.

Projeções indicam perdas expressivas

A distância entre o investimento realizado e o valor que o mercado está disposto a pagar é alarmante. O Safra estima um valor de venda na faixa de R$ 716 milhões, considerando um múltiplo por beneficiário bem inferior ao pago nas aquisições. Na melhor das hipóteses, com ajustes de até 30%, o valor poderia chegar a R$ 931 milhões, mas ainda assim representaria uma perda contábil de cerca de R$ 3 bilhões para a Hapvida.

O Bank of America (BofA) apresenta uma projeção um pouco mais otimista, estimando entre R$ 950 milhões e R$ 1,2 bilhão. Mesmo neste cenário mais favorável, a Hapvida recuperaria, na melhor das hipóteses, cerca de R$ 1,2 bilhão, menos de um quinto do que foi desembolsado. O Safra projeta um cenário-base de R$ 716 milhões.

Encolhimento da base de beneficiários e rentabilidade em queda

A operação no Sul tem encolhido rapidamente. Desde dezembro de 2022, a Hapvida perdeu 177 mil beneficiários, uma queda de 27%, enquanto o mercado da região crescia. A base de vidas, que já chegou a 658 mil, hoje conta com 481 mil.

A rentabilidade acompanha essa tendência de queda. Segundo o BofA, a Clinipam operou com sinistralidade de 83% em 2025, e o Centro Clínico Gaúcho, de 94%, enquanto a Hapvida consolidada registrou 75%. Os ativos do Sul representam 5,5% da base total de beneficiários, mas pesam desproporcionalmente sobre o resultado financeiro da empresa.

Desafios estruturais e a estratégia de desinvestimento

O domínio da Unimed, com mais de 60% do mercado no Sul, limita o poder de precificação da Hapvida e dificulta a escalabilidade de seu modelo verticalizado, que tem sucesso em outras regiões. A fórmula que consagrou a Hapvida no Norte e Nordeste simplesmente não se replicou ali.

Apesar da potencial perda contábil bilionária, manter a operação pode custar ainda mais caro. A queima de caixa da Hapvida no segundo semestre de 2025 foi de R$ 780 milhões. A venda, mesmo por um valor reduzido, pode reduzir a dívida líquida em 10%, melhorando a alavancagem ajustada, conforme cálculos do Safra.

O principal ganho, contudo, é estratégico: o foco renovado. A disposição da gestão em tomar decisões difíceis, como a venda de ativos com prejuízo, sinaliza um compromisso com a preservação de valor a longo prazo. O BofA, embora cético, reconhece que a venda simplifica a operação e promove disciplina de capital, mas mantém recomendação de desempenho abaixo da média do mercado.

Próximos desafios no Sudeste e São Paulo

A venda da operação no Sul é um capítulo que a Hapvida consegue encerrar com relativa rapidez. No entanto, os desafios mais complexos residem em outros mercados. A perda de beneficiários no Sudeste e a pressão sobre o tíquete médio e a rentabilidade em São Paulo, mercado herdado da fusão com a NotreDame Intermédica, continuam sendo pontos de atenção.

Os próximos passos da Hapvida exigirão estratégias mais robustas para reverter o quadro nesses mercados mais críticos, onde a concorrência e as particularidades regionais impõem barreiras mais elevadas.