Carlos Kawall desmistifica impactos do petróleo na inflação brasileira e aponta o câmbio como vilão principal.
A recente escalada do preço do petróleo acima dos US$ 100 por barril reacendeu o debate sobre a inflação no Brasil e levantou dúvidas sobre a trajetória de queda nos juros. No entanto, a perspectiva de Carlos Kawall, ex-secretário do Tesouro Nacional e diretor da Oriz Partners, é de que o cenário ainda não justifica um alarme generalizado.
Segundo Kawall, a inflação ao consumidor, medida pelo IPCA, pode fechar o ano abaixo dos 4%, abrindo caminho para o Banco Central reduzir a taxa Selic já na próxima reunião. A condição para que essa agenda se concretize, contudo, é a manutenção de um câmbio estável.
A análise de Kawall, divulgada pelo InvestNews, sugere que um dólar mais forte, com seu consequente encarecimento de produtos importados e insumos, representa um risco maior para a inflação do que as flutuações no preço do petróleo. O especialista detalha os fatores que moldam essa visão e as expectativas para o futuro da economia brasileira.
Inflação sob controle: o papel crucial do câmbio
Carlos Kawall explica que, até o final de fevereiro, o cenário inflacionário brasileiro era desafiador, mas apontava para uma taxa abaixo de 4% ao ano, possivelmente próxima de 3,5%. Apesar das dificuldades com o mercado de trabalho aquecido e a inflação de serviços, fatores como um dólar mais fraco, a baixa inflação de alimentos e perspectivas favoráveis para os combustíveis contribuíam para um quadro geral positivo.
O especialista ressalta que um dólar mais forte pode elevar a inflação porque encarece produtos importados e insumos essenciais cotados na moeda americana, como combustíveis, fertilizantes e alimentos. Esse aumento de custos, quando repassado ao consumidor, pressiona os índices inflacionários.
Contudo, com o câmbio comportado, Kawall não vê sinais de que esse seja o caminho predominante no momento. A apreciação do real, impulsionada pelo Brasil ser um exportador de petróleo, atua como um mitigador, barateando produtos importados e o próprio petróleo em reais, o que contrabalanceia o impacto de um choque de oferta.
Choque do petróleo: impacto limitado e fatores atenuantes
A tensão no Estreito de Ormuz e questões logísticas na região do Golfo Pérsico foram citadas como os principais pontos de preocupação no mercado de petróleo, e não a produção em si. Kawall minimiza o impacto de um eventual aumento de preço permanente, considerando que o mercado já opera com excesso de oferta e que a produção de países como Estados Unidos, Canadá e Brasil tem aumentado significativamente.
Ele lembra que, nos últimos anos, o mercado esteve estruturalmente sobreofertado, e a expectativa de aumento de produção na Venezuela nos próximos anos reforça essa tendência. Mesmo com um aumento de 10% no preço do petróleo, o impacto no IPCA seria de cerca de 0,15 a 0,20 ponto percentual, e isso dependeria da permanência desse aumento.
Kawall também destaca a cautela da Petrobras em não agir prematuramente diante da volatilidade e o viés do governo, em ano eleitoral, de resistir a grandes aumentos nos combustíveis. Esses fatores, combinados com a política monetária focada em combater efeitos secundários, limitam o impacto direto do choque do petróleo na inflação.
Corte de juros à vista, mas com cautela
Apesar da incerteza gerada pelo conflito no Oriente Médio, Carlos Kawall mantém a expectativa de que o Banco Central inicie o ciclo de cortes na taxa Selic com uma redução de 0,50 ponto percentual na próxima reunião. A meta é chegar ao final do ano com a Selic em 12,25% ao ano.
Ele reconhece a possibilidade de um corte menor, de 0,25 ponto percentual, mas considera o cenário de 0,50 mais provável. A decisão anterior do BC, com o dólar a R$ 5,35, já indicava um quadro favorável, com o câmbio chegando a cair abaixo de R$ 5,20 posteriormente.
O especialista enfatiza que a política monetária não é projetada para combater choques de oferta diretamente, mas sim seus efeitos secundários. Se a inflação se disseminar para o câmbio, aí sim haveria uma preocupação maior, mas, por enquanto, o comportamento da moeda americana está bem controlado.
Brasil exportador de petróleo: uma nova dinâmica para o câmbio
Kawall aponta que a condição de o Brasil ser um exportador líquido de petróleo mudou a dinâmica do país em relação aos choques de preço. Há dez anos, o cenário era diferente, com o país mais dependente de importações, o que tornava o impacto de um choque de preço mais direto.
Agora, com a produção de petróleo em alta, o viés para o câmbio é de apreciação, e não de depreciação, mesmo em momentos de busca por proteção. Essa nova realidade mitiga os efeitos inflacionários de um aumento no preço do petróleo.
O exemplo de 2022, com a guerra na Ucrânia, mostrou como o real se apreciou em relação a outras moedas emergentes, beneficiando exportadores de petróleo. Kawall acredita que, se o preço do petróleo se mantiver alto, o real deve ter uma performance melhor que outras moedas emergentes, estabilizando o dólar em patamares próximos aos atuais.
Ele conclui que, mesmo com a possibilidade de oscilações no preço do petróleo e a política de preços da Petrobras em ano eleitoral, os fatores estruturais e o controle do câmbio ainda permitem uma inflação abaixo de 4% para este ano, com espaço para a continuidade do ciclo de cortes de juros.
