O dilema de Angus: um bezerro que se tornou obra de arte e agora enfrenta o abate ou a salvação pelas mãos de seus investidores.
Há dois anos, o grupo artístico de Brooklyn, MSCHF, lançou um projeto intrigante: a venda de cotas de um bezerro preto chamado Angus. A promessa era que, caso os investidores não optassem por salvá-lo, o animal seria transformado em hambúrgueres e bolsas de couro.
Agora, o destino de Angus, que já é um touro adulto, será decidido em 13 de março. A votação online, realizada através do chamado “Remorse Portal”, indica um cenário desfavorável para a sobrevivência do animal.
Apenas cerca de um terço dos 404 proprietários de Angus enviaram suas participações tokenizadas para votar a favor da sua vida. Se o número não atingir 50% até a data limite, Angus será abatido e dará origem a 1.200 hambúrgueres e quatro bolsas de couro exclusivas, desenhadas pelo grupo.
Um debate polarizador no mundo da arte
O projeto “Our Cow Angus” tem gerado discussões acaloradas, comparáveis ao impacto de obras chocantes de artistas como Damien Hirst. Ativistas pelos direitos dos animais criticam a iniciativa como bárbara, enquanto curadores de arte a veem como uma crítica pertinente à dissonância cognitiva dos consumidores em relação ao consumo de carne.
Lançado em 2024, o projeto viu Angus se esgotar rapidamente. O plano original previa a produção de 400 pacotes com três hambúrgueres, vendidos a US$ 35 cada, e quatro bolsas de couro por US$ 1.200. Atualmente, os “tokens de hambúrguer” são revendidos por cerca de US$ 233 no site StockX.
Acompanhando o crescimento de Angus
Os membros do MSCHF, incluindo o cofundador Kevin Wiesner, confessam que o impacto emocional de acompanhar o crescimento de Angus em uma fazenda de produção de carne foi maior do que o esperado. “Acho que percebemos intelectualmente que as chances de salvá-lo eram menores do que as de comê-lo, porque estamos pedindo que as pessoas mudem de ideia ativamente para salvá-lo”, disse Wiesner, “Mas agora isso é de partir o coração.”
Wiesner revelou que a ideia surgiu após um projeto anterior que envolvia a venda de bolsas de couro personalizadas, despertando a curiosidade do grupo sobre as cadeias de produção de couro e carne. A instalação de uma fábrica temporária em Italy, Texas, permitiu que estampassem “Made in Italy” nas bolsas.
Desistências e o valor colecionável
Curiosamente, alguns proprietários de bolsas feitas com Angus já desistiram de suas participações, aumentando ligeiramente as chances de sobrevivência do animal. Um investidor chegou a oferecer abrir mão de sua parte, mas apenas se mais investidores de hambúrguer fizessem o mesmo.
Wiesner expressa surpresa com o baixo número de desistências, considerando que o valor dos hambúrgueres está acima do preço de mercado. Ele especula que muitos proprietários podem ter esquecido o prazo ou temem abrir a embalagem do token, que contém instruções para salvar Angus, por receio de perder seu valor como item colecionável. Quem devolve sua participação não recebe o dinheiro de volta, mas contribui para a salvação do boi.
Custo de vida versus abate
Segundo o artista, o custo de abater Angus e transformá-lo em produtos é similar ao de mantê-lo em um santuário pelo resto de sua vida natural, que poderia se estender por mais 20 anos. A decisão final repousa sobre os ombros dos 404 investidores.
Críticas e reflexões sobre o projeto
O artista de retratos de animais David McDonald, conhecido como Davis McDavis, embora admire o MSCHF, considera que o projeto “Our Cow Angus” ultrapassou limites. Ele, que já foi consumidor de produtos do coletivo, agora se sente desconfortável com a ideia de dar um nome a um animal destinado ao consumo.
“Eu sei que as pessoas comem hambúrgueres, mas vocês deram um nome a ele, então agora ele virou um animal de estimação”, comentou McDavis, “Vou ficar só com meus Hoka.” A obra, ao que parece, cumpre seu objetivo de gerar desconforto e reflexão sobre nossas relações com a produção de alimentos.
