Banco Mundial: Erro Histórico de 3 Décadas Sobre Livre Mercado é Corrigido, Reabilitando o Papel do Estado na Indústria

Banco Mundial admite erro em conselhos de livre mercado e reabilita política industrial

Em uma reviravolta significativa, o Banco Mundial reconheceu um equívoco em suas recomendações econômicas que vigorou por mais de trinta anos. A instituição admitiu que a política industrial, que incentiva intervenções estatais em setores estratégicos, deve ser reavaliada e pode ser fundamental para o crescimento econômico, especialmente em um cenário global de busca por resiliência e desenvolvimento.

A mudança de perspectiva ocorre após a revisão de um estudo de 1993 sobre o sucesso das economias do Leste Asiático. Na época, o Banco Mundial controversamente concluiu que o crescimento dessas nações não estava atrelado às políticas industriais adotadas, classificando-as como um “fracasso custoso”. Essa visão contribuiu para estigmatizar a intervenção estatal, em um momento que a globalização ganhava força.

O economista-chefe do Banco Mundial, Indermit Gill, comparou o conselho da época à utilidade de um disquete, indicando sua obsolescência. A nova análise do banco aponta que o “grande impulso” governamental na Coreia do Sul nos anos 70, ao apoiar indústrias pesadas e químicas, impulsionou o crescimento econômico em cerca de 3% ao ano, desmistificando a ideia de fracasso.

A volta da política industrial: um novo capítulo

Apesar do estigma, muitos países, como a China, nunca abandonaram completamente a política industrial. Agora, com economias desenvolvidas, incluindo os Estados Unidos, também adotando medidas semelhantes, o Banco Mundial afirma que a “política industrial, o conjunto de instrumentos usados pelos governos para influenciar o que uma economia produz, voltou com força”.

O relatório destaca exemplos recentes, como a Romênia, que ofereceu incentivos fiscais a engenheiros de software. Essa ação ampliou a oferta de profissionais qualificados e transformou o país em um polo de desenvolvimento tecnológico global. A busca por orientação sobre como usar a política industrial aumentou consideravelmente, com 80% dos economistas do Banco Mundial relatando ter sido consultados sobre o tema no último ano.

Recomendações e desafios para países em desenvolvimento

O novo relatório do Banco Mundial oferece recomendações sobre 15 instrumentos de política industrial, indo além de tarifas e subsídios. No entanto, a instituição alerta que a estratégia não é uma “solução mágica” para o crescimento. O economista-chefe Indermit Gill ressalta que os erros em economias em desenvolvimento frequentemente ocorrem pelo uso de instrumentos pouco precisos, como tarifas amplas e subsídios generalizados, em vez de medidas mais direcionadas.

O Banco Mundial observa que economias avançadas tendem a ter maior capacidade de implementar políticas industriais de forma eficaz, devido à melhor estrutura administrativa, mercados maiores e mais recursos. Contudo, na prática, são os países em desenvolvimento que mais utilizam essas ferramentas. Em economias com renda per capita entre US$ 5 mil e US$ 14 mil, os subsídios às empresas já equivalem, em média, a 4,2% do PIB, o maior nível já registrado.

Tarifas e subsídios: uso e eficácia em diferentes economias

O Banco Mundial estima que 183 países adotam políticas para impulsionar ao menos um setor. Países mais pobres miram, em média, 13 indústrias, o dobro das economias ricas. Embora iniciativas como tarifas sobre importações ganhem destaque, impostos sobre importações são ainda mais comuns em países de baixa renda, onde tendem a ser menos eficazes. “Economias de baixa renda, geralmente com mercados menores, são as que mais utilizam tarifas, embora essas dependam de mercados amplos para funcionar bem”, aponta o banco.

Apesar da mudança de postura do Banco Mundial, a política industrial ainda enfrenta críticas. O Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento, por exemplo, argumenta que essas políticas podem fragmentar economias, abrir espaço para corrupção e se prolongar além do necessário. A reabilitação da política industrial, portanto, vem com a ressalva de que sua aplicação exige precisão e governança eficaz.