O biometano surge como um forte concorrente na corrida pela descarbonização do transporte público brasileiro, apresentando-se como uma alternativa viável aos ônibus elétricos.
A cidade de Goiânia deu um passo importante ao colocar em operação os primeiros ônibus articulados movidos a biometano do país. Este combustível inovador é produzido a partir de resíduos orgânicos, como vinhaça da cana-de-açúcar, dejetos animais e lixo urbano, demonstrando o potencial de aproveitamento de materiais que seriam descartados.
A chegada do biometano ocorre em um momento onde a eletrificação das frotas, antes vista como a única solução, enfrenta obstáculos consideráveis. Em São Paulo, apesar de já possuir a maior frota elétrica do país com 1.259 ônibus, a expansão enfrenta desafios significativos, como o alto custo inicial e longos tempos de recarga.
A realidade paulistana, onde a meta de eletrificar metade da frota até 2028 se mostra inviável, abriu espaço para um debate mais pragmático sobre a descarbonização. A flexibilização das regras em São Paulo, com a criação do Programa BioSP, permite agora o uso do biometano em linhas onde a infraestrutura elétrica ainda é insuficiente, conforme divulgado pela prefeitura.
Desafios da Eletrificação Abrem Caminho para o Biometano
Um dos principais entraves para a adoção em massa dos ônibus elétricos é o custo de aquisição, que pode ser até três vezes superior ao de um ônibus a diesel. Além disso, o tempo de recarga, que varia de uma a quatro horas, contrasta com os menos de dez minutos necessários para um veículo a diesel e os cerca de 15 minutos para o biometano. A necessidade de reforços na rede elétrica para instalar carregadores também representa um gargalo logístico e financeiro.
Diante desses desafios, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, admitiu que a meta de eletrificação da frota não será cumprida em sua totalidade. Essa constatação impulsiona a discussão sobre a diversificação de tecnologias, incluindo modelos híbridos a etanol e o crescente interesse no biometano, como apontam fabricantes como a Marcopolo, que também pesquisa ônibus a hidrogênio.
Biometano: Vantagens Econômicas e Operacionais
O biometano apresenta um custo de aquisição cerca de 1,5 vez maior que o do diesel, significativamente menor que os ônibus elétricos. A infraestrutura para abastecimento também é um ponto forte, exigindo tanques de gás comprimido nas garagens, em vez de complexas adequações na rede elétrica de alta tensão. Alex Nucci, diretor comercial da Scania Brasil, destaca que “o gás ganha escala mais rápido porque não depende de upgrades massivos em subestações”.
A autonomia é outro fator relevante. Em Goiânia, os ônibus articulados a biometano alcançam mais de 400 km com uma única carga, superando os 200 a 250 km de autonomia dos ônibus elétricos. Essa capacidade é essencial para atender às jornadas diárias dos sistemas de transporte público, que geralmente ficam entre 250 e 300 km.
Goiânia Lidera com Biometano e Investe em Infraestrutura
A escolha de Goiânia pelo biometano é estratégica, aproveitando a vocação agroindustrial do estado, com vasta produção de cana-de-açúcar e pecuária. O Consórcio BRT de Goiânia firmou parceria com a GeoGreen Biogás para construir a primeira usina de biometano do estado, com um investimento de R$ 150 milhões. A meta é chegar a 500 veículos movidos a biometano até 2027, com um investimento total superior a R$ 2,5 bilhões.
Enquanto a usina não opera em plena capacidade, o abastecimento é feito por carretas de biometano comprimido, podendo ser complementado com gás natural veicular (GNV). Laércio Ávila, diretor-executivo do Consórcio BRT de Goiânia, ressalta a importância da frota de ônibus como “âncora que torna a usina viável”, criando um ciclo virtuoso de investimento e demanda.
GNV e a Convivência de Tecnologias no Transporte
A frota de ônibus movidos a GNV também está em expansão no Brasil. A Scania projeta vender cerca de 3 mil veículos a gás (caminhões e ônibus) até o final de 2026. A empresa tem investido significativamente na nacionalização de motores, transformando sua fábrica em São Bernardo do Campo em um hub global para essa tecnologia. A Scania sinaliza uma aposta na convivência entre diferentes fontes de energia, incluindo a produção local de ônibus elétricos.
Exemplos internacionais, como a frota de ônibus a biometano em Estocolmo, Suécia, e o uso de ônibus a gás em Bogotá, Colômbia, reforçam a viabilidade e o potencial dessas tecnologias. Alexandre Cervelin, gerente comercial da Marcopolo, afirma que “não há uma tecnologia que vai dominar”, mas sim “soluções que se encaixam melhor para cada região”.
O Futuro é Misto: Biometano, Elétrico e Outras Alternativas
O ônibus elétrico continua sendo uma opção relevante, especialmente pelo seu custo operacional significativamente menor em comparação com o diesel. Em São Paulo, um ônibus a bateria gasta cerca de R$ 5 mil por mês em energia, contra R$ 25 mil do diesel. A tendência é que, com a redução do custo das baterias e o amadurecimento da infraestrutura de recarga, os elétricos ganhem mais espaço.
No entanto, para um setor que enfrenta queda na demanda de passageiros, falta de acesso a crédito e frotas envelhecidas, o biometano surge como uma solução que oferece velocidade de implantação, um fator crucial para a renovação necessária. A flexibilidade e a viabilidade econômica do biometano o posicionam como um forte aliado na transição energética do transporte público brasileiro.
