Conselho da Berkshire Hathaway: Por que Salários de R$ 15 Mil e Sem Bônus em Ações Revolucionam Governança Corporativa?

A Berkshire Hathaway desafia o status quo na remuneração de seus conselheiros e executivos, oferecendo salários modestos e ausência de bônus em ações.

Em um cenário empresarial onde a remuneração de executivos e conselheiros frequentemente atinge cifras milionárias e envolve complexos planos de incentivo baseados em ações, a Berkshire Hathaway, sob a filosofia de governança de Warren Buffett, apresenta um modelo radicalmente distinto.

O recente documento de 2026 divulgado pela companhia revela que essa abordagem, mantida desde 1965, continuará sob a liderança do novo CEO, Greg Abel. A empresa se destaca por sua recusa em conceder remuneração em ações, optando exclusivamente por pagamentos em dinheiro, uma prática que contrasta fortemente com a indústria.

Essa filosofia se estende aos membros do conselho, cujos ganhos anuais raramente ultrapassam os US$ 3 mil, um valor significativamente inferior à média observada em empresas do S&P 500. Essa estratégia, conforme divulgado no proxy statement de 2026, visa reforçar o compromisso com os acionistas e a preservação da cultura corporativa única da Berkshire, como divulgado pela companhia.

Remuneração de Conselheiros: Um Retorno aos Anos 60

A estrutura de remuneração dos conselheiros da Berkshire Hathaway é notavelmente conservadora. Conforme o documento divulgado, os membros do conselho recebem US$ 900 por reunião presencial e US$ 300 por participação em chamadas telefônicas. A maioria dos conselheiros, com base em quatro reuniões anuais, acumulou cerca de US$ 3 mil no último ano.

Os integrantes do comitê de auditoria recebem um adicional trimestral de US$ 1 mil, elevando seus ganhos anuais para aproximadamente US$ 7 mil. Em comparação, a remuneração média de um conselheiro em empresas do S&P 500 ultrapassa os US$ 250 mil anuais, segundo dados de mercado.

Prestígio e Responsabilidade: O Valor do Cargo na Berkshire

Ainda que a remuneração financeira seja modesta, a posição no conselho da Berkshire Hathaway é amplamente vista como um cargo de grande prestígio e responsabilidade. Gestores como Chris Davis já descreveram a função como uma forma de “confiança pública”, dada a vasta base acionária da empresa, que conta com quase três milhões de acionistas.

Um aspecto distintivo da governança da Berkshire é a ausência de seguro de responsabilidade civil para diretores e executivos (D&O insurance). Isso implica que os conselheiros assumem um risco financeiro pessoal em suas funções, embora a expectativa seja de que a empresa ofereça suporte em caso de litígios por parte de acionistas.

Filosofia de Remuneração: Simplicidade e Crítica a Consultores

A Berkshire Hathaway também se diferencia pela ausência de fórmulas complexas de remuneração para seus executivos, como bônus baseados em tempo ou desempenho. Em 2025, Warren Buffett, que em 2026 cedeu o posto de CEO a Greg Abel, determinou a remuneração dos principais executivos de forma “subjetiva”, baseada em sua avaliação pessoal do desempenho.

A empresa evita a contratação de consultores de remuneração, prática que Buffett e o falecido Charlie Munger criticavam veementemente, alegando que tais serviços inflavam os salários dos executivos em detrimento dos acionistas. Munger chegou a declarar que preferiria “jogar uma cobra venenosa dentro da camisa” a contratar um consultor desse tipo.

Seleção de Conselheiros: Integridade e Mentalidade de Dono Acima de Tudo

A Berkshire Hathaway adota um critério de seleção para seus conselheiros focado em características como “altíssimo nível de integridade, visão de negócios, mentalidade de dono, interesse genuíno pela empresa” e, crucialmente, a posse de um investimento significativo em ações da companhia por pelo menos três anos. A empresa declarou explicitamente não considerar “diversidade, seja qual for a definição” em seus processos de escolha.

Essa exigência de participação acionária relevante é visível entre os membros. Susan Decker, por exemplo, possui cerca de US$ 1,5 milhão em ações, enquanto Howard Buffett, filho de Warren Buffett, detém aproximadamente US$ 8 milhões. Susan Buffett, irmã de Howard, possui cerca de US$ 17 milhões em papéis da Berkshire.

Apesar das críticas externas sobre a suposta falta de independência do conselho devido à influência de Warren Buffett e à idade média elevada dos membros, a maioria dos acionistas parece satisfeita com a gestão e a forma como a Berkshire Hathaway opera, refletindo a forte participação e o poder de voto do próprio Buffett na companhia, que detém cerca de 13,7% da participação econômica e 30,2% do poder de voto.