Cosan precisa de caixa, mas descarta vender Rumo a qualquer preço, foco em zerar dívida da holding

Cosan busca caixa, mas mantém estratégia de valorização de ativos, negando venda da Rumo a qualquer preço

A Cosan reforçou seu compromisso em zerar o endividamento da holding, mesmo após uma significativa redução da dívida líquida expandida de R$ 23,5 bilhões para R$ 9,8 bilhões ao longo de 2025. O grupo, no entanto, descarta a venda de ativos a qualquer valor para acelerar esse processo, priorizando a manutenção do valor de seus investimentos.

Apesar da necessidade de gerar caixa, a diretoria da Cosan negou veementemente as especulações sobre negociações para vender sua participação de 30% na operadora ferroviária Rumo para a Ultrapar e a gestora Perfin. O CEO Marcelo Martins classificou tais boatos como especulação de interessados em comprar ações a preços baixos.

Em teleconferência sobre os resultados do quarto trimestre de 2025, Martins declarou: “Não temos neste momento absolutamente nenhum engajamento para fazer a operação que foi veiculada no mercado. Isso não nos interessa.” Ele reconheceu que a venda de participações é parte da estratégia de desalavancagem, mas ressaltou que não há urgência nem negociações específicas em andamento, conforme divulgado pelo grupo.

Desalavancagem e corte de custos na Cosan

O CEO Marcelo Martins detalhou que a estratégia de desalavancagem da Cosan inclui a venda de participações em ativos, mas enfatizou que não há pressão de acionistas para fechar negócios a qualquer preço. A companhia já reduziu sua dívida líquida expandida em quase R$ 14 bilhões, encerrando o quarto trimestre de 2025 com R$ 9,8 bilhões. Essa redução foi impulsionada pela venda de ações da Vale e um follow-on de R$ 10,5 bilhões, ancorado por BTG Pactual e Perfin.

Paralelamente, a Cosan realizou uma venda parcial de cerca de 10% de suas ações na Rumo, combinada com um instrumento financeiro que permitiu reforçar o caixa sem perder totalmente a exposição econômica ao ativo. Contudo, o fluxo de caixa da holding ainda não reflete totalmente esse avanço, com o índice de cobertura do serviço da dívida em 0,9 vez, abaixo do mínimo de 1,0 vez.

Em uma medida para otimizar a estrutura, o quadro de funcionários da Cosan foi reduzido entre 40% e 45%. O objetivo final, segundo Martins, é ambicioso: zerar completamente a dívida da holding, uma vez que a justificativa para a alavancagem anterior, focada no crescimento do portfólio, já não se aplica.

IPO da Compass Gás e Energia como próximo passo

O próximo passo concreto da estratégia de desalavancagem da Cosan é o IPO da Compass Gás e Energia, dona da Comgás. A companhia já protocolou o pedido de registro para a oferta, que será integralmente secundária, com os recursos direcionados para o caixa da holding. O mercado estima que a operação movimente cerca de R$ 5 bilhões.

Martins reiterou que o follow-on de setembro foi apenas o início de um processo maior, e o IPO da Compass é a demonstração mais concreta desse compromisso. A estrutura que a Cosan mantinha no passado, segundo o CEO, perdeu o sentido e a holding, da forma como existia, não tem mais razão de continuar.

Raízen em terreno incerto e a não participação da Cosan

Enquanto a Cosan avança em sua desalavancagem, a Raízen, joint venture com a Shell, enfrenta um cenário desafiador, acumulando prejuízo de R$ 19,8 bilhões no ano-safra 2025/26. A empresa está avaliando uma solução abrangente para sua estrutura de capital, que inclui um aporte de R$ 4 bilhões, sendo R$ 3,5 bilhões da Shell e R$ 500 milhões de um veículo da família Ometto, além da reestruturação do endividamento com possível conversão de dívida em capital.

É notável que a Cosan não participará diretamente dessa solução para a Raízen. Segundo Martins, a companhia dedicou seis meses tentando construir uma estrutura de capitalização que justificasse sua participação, mas as conversas não chegaram a um acordo nos termos considerados adequados. O ponto de ruptura foi a arquitetura do negócio, com a Cosan defendendo a separação dos negócios da joint venture em estruturas de capital distintas para etanol, açúcar, bioenergia e distribuição de combustíveis.

“São negócios com geração de caixa distintas e que exigem uma estrutura de capital também distinta. A não separação dos negócios para a gente é um problema”, declarou Martins. Sem essa condição atendida, o aporte não estava justificado, especialmente diante das restrições de capital que a própria holding ainda enfrenta. A Cosan continuará acompanhando o processo como acionista e conselheira, antecipando novos desdobramentos nos próximos dias, com o engajamento dos credores avançando de forma estruturada.