Economistas dos EUA preveem inflação temporária e crescimento estável, mas alertam sobre o impacto de um petróleo a US$ 138 por barril por longos períodos.
A economia dos Estados Unidos tem demonstrado uma surpreendente resiliência diante de um cenário global complexo, marcado por conflitos no Oriente Médio, volatilidade nos preços do petróleo e avanços tecnológicos. Apesar das pressões inflacionárias e das incertezas, a maioria dos economistas consultados pelo The Wall Street Journal não antevê uma recessão iminente.
No entanto, essa perspectiva otimista está condicionada a um choque energético que não se prolongue. Um aumento sustentado nos preços do petróleo, especialmente se atingir o patamar de US$ 138 por barril e se mantiver nesse nível por várias semanas, poderia alterar significativamente as projeções econômicas, elevando o risco de uma contração econômica.
A pesquisa, que ouviu 50 economistas entre os dias 16 e 18 de março, indica que a probabilidade de recessão nos próximos 12 meses é estimada em 32%, um leve aumento em relação aos 27% registrados em janeiro. A análise, divulgada pelo The Wall Street Journal, aponta para uma inflação passageira e um impacto mínimo no crescimento e no desemprego, desde que a atual crise do petróleo seja transitória.
Petróleo em Alta: O Limite para Evitar a Recessão
A pesquisa revelou que, para a maioria dos economistas, o preço do barril de petróleo precisaria ultrapassar a média de **US$ 138** e permanecer nesse patamar por aproximadamente **14 semanas** para que a probabilidade de recessão nos EUA ultrapasse os 50%. As estimativas individuais sobre o preço variaram de US$ 90 a US$ 200, e o tempo de permanência em níveis elevados foi de quatro a 55 semanas.
Robert Fry, da Robert Fry Economics, por exemplo, considera que um cenário de petróleo a US$ 125 por oito semanas já seria um ponto de inflexão. Ele ressalta que sua projeção depende da reabertura total do Estreito de Ormuz ao tráfego de petroleiros até meados de abril. Caso contrário, ele prevê um aumento mais expressivo nos preços e a inclusão de uma recessão em seu cenário.
Projeções Econômicas: Crescimento Moderado e Inflação em Alta
Apesar das preocupações com o petróleo, os economistas projetam um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ajustado pela inflação de **2,1%** no quarto trimestre deste ano, ligeiramente abaixo dos 2,2% previstos em janeiro. A taxa de desemprego deve encerrar o ano em 4,5%, mantendo-se estável em relação à projeção anterior.
Em contrapartida, as expectativas para a inflação foram revisadas para cima. Os economistas agora preveem que o índice de preços ao consumidor (IPC) suba 2,9% em dezembro de 2026, acima dos 2,6% projetados anteriormente. Essa revisão não se limita apenas aos preços da gasolina, mas também ao núcleo do índice de gastos com consumo pessoal (PCE), que exclui itens voláteis.
Juros e Inflação: O Dilema do Federal Reserve
O cenário de inflação mais elevada tem impactado as expectativas de cortes nas taxas de juros. O Federal Reserve (Fed) manteve a taxa básica de juros entre 3,5% e 3,75%. A projeção média dos economistas é que a taxa encerre o ano em 3,26%, o que sugere entre um e dois cortes de 0,25 ponto percentual, menor do que os dois cortes esperados em janeiro.
Essa convergência aproxima as projeções dos economistas da visão dos dirigentes do Fed, que esperam, em média, um corte de 0,25 ponto percentual para este ano. Contudo, o presidente do Fed, Jerome Powell, enfatizou a incerteza gerada pela guerra, afirmando que as projeções atuais possuem menor relevância diante do cenário volátil.
Incerteza Geopolítica e o Preço do Petróleo
A interrupção no fluxo de cerca de 20% da oferta global de petróleo pelo Estreito de Ormuz impulsionou os preços, com o barril chegando a ser negociado acima de US$ 100. O preço médio da gasolina nos EUA atingiu US$ 3,84 por galão, um aumento significativo em relação ao mês anterior. Contudo, os economistas preveem que o preço do petróleo termine junho em US$ 86,70 e o ano em US$ 73,54.
Apesar dos riscos, alguns analistas, como os da California Lutheran University, apontam que os EUA, como maior produtor mundial de petróleo desde 2018, podem absorver preços entre US$ 80 e US$ 100 sem grandes impactos econômicos, lembrando que em 2008 os preços atingiram o equivalente a US$ 200 atuais. A resiliência da economia americana, segundo Bernard Baumohl do Economic Outlook Group, é notável, mas não deve ser tomada como garantida diante das múltiplas pressões globais.
