Explosão de Faculdades de Medicina: Enamed Expõe Falhas e Força Qualidade em Curso de R$ 11 Mil Mensais

Novo Exame Nacional para Medicina Revela Necessidade Urgente de Melhoria na Qualidade do Ensino Superior

O Brasil vivencia uma verdadeira explosão no número de faculdades de medicina, um setor que se mostra altamente lucrativo, com mensalidades que chegam a R$ 11 mil e baixos índices de inadimplência e evasão. Esse crescimento acelerado, impulsionado pela flexibilização de critérios para a abertura de novos cursos na última década, agora enfrenta um desafio crucial: a comprovação da qualidade.

A criação do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes de Medicina (Enamed), em 2025, pelo Ministério da Educação (MEC), colocou a formação médica sob os holofotes. Os resultados da primeira edição da prova revelaram um cenário preocupante, com um percentual significativo de instituições apresentando desempenho insuficiente, o que levou o MEC a aplicar sanções a cursos com os piores resultados.

Diante desse cenário, representantes do setor educacional correm para demonstrar que a expansão não comprometeu o rigor acadêmico. A qualidade da educação médica no país tornou-se o centro do debate, com escolas buscando convencer reguladores, investidores e futuros alunos de que a formação continua sólida. Conforme informações divulgadas pelas fontes, 32% das instituições avaliadas obtiveram conceitos insuficientes no Enamed.

Sanções do MEC Atingem Grandes Grupos Educacionais

As consequências para os cursos com desempenho insatisfiatório já são evidentes. Instituições com conceito mínimo estão impedidas de receber novos alunos no próximo semestre e de acessar o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Em casos menos graves, as vagas para o período seguinte serão reduzidas em 25%. Essa medida impacta inclusive grandes companhias de capital aberto, como Yduqs, Ânima, Afya e Cogna.

A Yduqs, dona de marcas como Estácio e UniFacid, que reúne seus cursos de medicina sob a marca Idomed, foi uma das mais afetadas, com 317 vagas de medicina sob sanção, o que representa 15,4% do total oferecido. A vertical Idomed gerou um Ebitda de R$ 643 milhões em 2025, correspondendo a 34% do resultado operacional da companhia. A Ânima, com sua vertical Inspirali, que engloba marcas como Anhembi Morumbi e São Judas, terá cerca de 5,3% de suas vagas de medicina impactadas. A Afya, líder do setor, e a Cogna, com a KrotonMed, também enfrentam reduções em suas vagas.

Setor Debate Causas e Busca Soluções

Uma visão recorrente no setor é que os resultados negativos do Enamed não refletem uma falha intrínseca na formação, mas sim a falta de engajamento dos alunos com um exame cujo formato era, inicialmente, desconhecido. Jânyo Diniz, CEO da Ser Educacional, destacou a importância de envolver mais o aluno, fazendo-o compreender a relevância dessas avaliações, que antes eram vistas quase como uma obrigação formal para obter o diploma.

Para reverter o quadro, as instituições estão implementando medidas. A Ser Educacional, por exemplo, introduziu um novo modelo de internato com tutores para acompanhar os estudantes dos últimos semestres, atuando como ponte entre a prática hospitalar e o conteúdo acadêmico. A Cogna tem ampliado simulados e reforçado aulas de resolução de exercícios, com revisões baseadas nos erros do Enamed, além de rever critérios de avaliação das disciplinas para maior alinhamento com as competências exigidas pelo exame.

Judicialização e Perspectivas de Mercado

Paralelamente, associações como a ABMES e a ANUP estão recorrendo à Justiça para questionar a validade dos resultados do Enamed, alegando falhas no processo, como mudanças em critérios de avaliação e inconsistências nos dados. Paulo Chanan, diretor-geral da ABMES, critica a “ânsia de punir” que, segundo ele, estaria destruindo a imagem de instituições.

Apesar das sanções e do desgaste de imagem no curto prazo, analistas de mercado avaliam que as grandes empresas do setor possuem recursos para se adaptar às exigências do MEC com mais agilidade. Daniel Utsch, gestor da Nero Capital, observa que as companhias listadas podem até sair favorecidas em um cenário competitivo, ao se diferenciarem de players menores com menor capacidade de adaptação. Os cursos de medicina, com sua receita elevada e previsível, continuam sendo um dos negócios mais atrativos do setor educacional, com uma taxa de formandos que chega a 80%, muito superior à média geral do ensino superior.

Histórico de Expansão e o Papel do Enamed

O número de faculdades de medicina no Brasil era de cerca de 100 há duas décadas. O programa Mais Médicos, iniciado em 2013, impulsionou a expansão, com o setor privado desempenhando um papel fundamental. O MEC passou a organizar a abertura de novos cursos por meio de editais, resultando em um crescimento de 56% em cinco anos, puxado por faculdades privadas com fins lucrativos.

No entanto, a suspensão de novos editais em 2018 abriu caminho para a judicialização, com grupos educacionais obtendo liminares para expandir cursos fora dos editais oficiais. Atualmente, o país conta com mais de 400 cursos, e o número de vagas cresceu 313% entre 2010 e 2024. O Enamed surge, portanto, como uma tentativa do MEC de retomar o controle e avaliar a qualidade gerada por esse crescimento exponencial, funcionando como um “freio de arrumação” para identificar e corrigir distorções.