Guerra no Oriente Médio: Choque nos fertilizantes de fosfato ameaça produção de soja globalmente
O conflito no Oriente Médio, que inicialmente concentrou preocupações sobre a oferta de ureia, agora lança uma sombra sobre os fertilizantes fosfatados, cruciais para o cultivo de soja. A instabilidade na região, com rotas de transporte vitais sob ameaça, começa a impactar a cadeia produtiva de alimentos em escala mundial.
Enquanto os preços da ureia dispararam devido ao bloqueio de embarques pelo Estreito de Hormuz, a atenção se volta para o enxofre, um componente essencial para a produção de fertilizantes fosfatados. A dependência de países do Oriente Médio para o fornecimento de enxofre cria um gargalo significativo, com potenciais efeitos em cascata para a agricultura.
A disponibilidade de fertilizantes fosfatados é vital para a sustentação do crescimento de diversas culturas, incluindo a soja, um pilar da produção global de alimentos. Com os custos de produção já elevados, a nova ameaça eleva as preocupações com a inflação e a segurança alimentar, especialmente para agricultores americanos.
Enxofre em Risco: A Vulnerabilidade da Cadeia de Fosfatos
O Oriente Médio, embora represente cerca de um quinto do comércio global de produtos-chave de fosfato, é responsável por quase metade da oferta mundial de enxofre. Este elemento é transformado em ácido sulfúrico, um insumo indispensável no processamento de fertilizantes fosfatados. Segundo Andy Hemphill, analista da ICIS, a duração do conflito pode tornar os efeitos “exponenciais”, à medida que os estoques existentes de enxofre e ácido sulfúrico se esgotam.
Histórico de Pressões: Oferta Apertada e Políticas Comerciais
A oferta de fosfato e enxofre já enfrentava desafios antes mesmo do conflito. Os preços do enxofre atingiram níveis recordes, impulsionados pela demanda da indústria de mineração. Restrições nas exportações russas devido à guerra na Ucrânia e a redução dos embarques de fosfato pela China também contribuíram para a escassez.
Adicionalmente, as tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre o fosfato do Marrocos, um dos maiores produtores mundiais, e outras tarifas mais amplas implementadas anteriormente, limitaram as importações. Josh Linville, da StoneX Group, afirma que a situação do fosfato já era complicada e a guerra apenas a agravou, tornando-a possivelmente pior do que a dos nitrogenados.
Impacto nos Agricultores e Demandas por Estabilidade
Quase 80% do fósforo utilizado nos Estados Unidos é aplicado em lavouras de soja e milho. A alta nos preços dos fertilizantes fosfatados, com os contratos de enxofre em Tampa atingindo preços recordes em janeiro, já pressiona os agricultores. A competição com mineradoras, que pagam mais pelo enxofre, intensifica a disputa por esse insumo.
A situação reforça os apelos por maior estabilidade no mercado de fertilizantes nos EUA. Entidades do setor pressionam o governo americano a suspender as tarifas sobre o fosfato do Marrocos, argumentando que os preços elevados e os riscos geopolíticos já justificam a remoção dessas barreiras protecionistas. As tarifas, impostas em 2021, estão atualmente em revisão.
Previsão de Demanda Reduzida e Estoques Baixos
A acessibilidade aos fertilizantes já está impactando a demanda. A Itafos, produtora de fosfato, prevê uma queda de cerca de 20% no uso de fosfato nos Estados Unidos nos 12 meses encerrados em junho. Se os agricultores optarem por plantar mais soja em detrimento do milho para contornar os altos custos dos fertilizantes nitrogenados, a demanda por fosfato pode aumentar, exacerbando as restrições de oferta.
David Delaney, CEO da Itafos, alerta que o mercado permanecerá apertado durante a primavera, verão e outono. Ele estima que, mesmo com um corte de 20% na demanda, os estoques podem terminar a temporada completamente zerados, indicando um cenário de oferta crítica para os próximos meses.
