Investidores Ousados Apostam em Emergentes: Aposta em Juros Menores Após Choque do Petróleo Gira Mercado

Investidores Globais Veem Oportunidade em Mercados Emergentes Apesar do Aumento de Riscos

Em meio a um cenário de incertezas globais, marcado pelo recente choque nos preços do petróleo, gestoras de fundos internacionais como a TT International e a AllianceBernstein estão fazendo uma aposta contraintuitiva: a de que o momento atual é favorável para a compra de ativos em mercados emergentes. Essa estratégia desafia a visão predominante de cautela e se baseia na expectativa de que bancos centrais, ao invés de apertarem a política monetária com juros mais altos, poderão ser forçados a reduzi-los para evitar um colapso no crescimento econômico.

Apesar de os mercados emergentes estarem à beira de registrar o pior mês desde 2022, com quedas expressivas nas bolsas e aumento nos rendimentos de títulos, uma minoria de investidores vê nesses movimentos uma oportunidade de aquisição. A premissa é que o mercado precificou um risco maior do que o real, abrindo portas para ganhos futuros. Essa perspectiva é compartilhada por nomes como a Pacific Investment Management Company, que aponta para a existência de oportunidades para ir contra a narrativa dominante.

Essa visão contrária ao consenso ganhou força após o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, apresentar sinais de que pode estar mais inclinado a priorizar o combate a uma possível recessão do que a combater a inflação de forma agressiva. Essa mudança de tom, que diminuiu a probabilidade de alta de juros nos EUA ainda este ano, pode aliviar a pressão sobre as moedas e os ativos de mercados emergentes. Conforme informação divulgada por gestoras internacionais, a probabilidade de elevação de juros pelo Fed caiu para menos de 50%.

Aposta em Ativos Depreciados e Visão Contrariana

Jean-Charles Sambor, chefe de dívida de mercados emergentes da TT International, declarou que a gestora já iniciou a compra de crédito emergente e títulos em moeda local. Segundo ele, o mercado precificou o risco de forma errada. A TT International, por exemplo, adicionou posições em títulos locais da Polônia e da República Tcheca, além de papéis denominados em dólar de Venezuela e Líbano, buscando valor em ativos que sofreram desvalorização.

A estratégia se concentra em ativos que foram penalizados, como títulos de dívida de países emergentes. A lógica é que, se o choque do petróleo persistir, ele pode evoluir de um fator inflacionário para um causador de destruição de demanda. Nesse cenário, os bancos centrais teriam que agir para estimular a economia, o que implicaria em juros mais baixos. Para Christian DiClementi, diretor de dívida emergente da AllianceBernstein, as maiores oportunidades residem justamente nos mercados que foram mais afetados pelas recentes turbulências.

Mercados Emergentes Sob Pressão, Mas com Potencial de Recuperação

Os mercados emergentes enfrentaram uma forte onda de vendas, com as bolsas emergentes caindo cerca de 10% no mês. Os rendimentos médios dos títulos em moeda local atingiram o maior nível em quase dois anos. Países importadores de energia, como Polônia, África do Sul e Tailândia, sentiram o impacto de forma ainda mais acentuada, com a elevação dos juros em cerca de 0,50 a 1 ponto percentual. Algumas moedas emergentes chegaram a recuar mais de 5%.

A guerra iniciada em fevereiro interrompeu uma forte recuperação que impulsionava ações e títulos locais. Antes desse conflito, os mercados emergentes apresentavam o melhor início de ano desde 2012 e 2017, respectivamente. Essa recuperação também colocou fim a uma sequência de 20 semanas de entrada de recursos em ETFs focados em emergentes, que somavam US$ 58,9 bilhões. O volume expressivo de entradas antes do conflito sugere que ainda há espaço para saídas adicionais, mas também indica um interesse subjacente por esses ativos.

Perspectivas Futuras e Atratividade Estrutural

Apesar do cenário desafiador, há sinais de que a confiança nos mercados emergentes pode ser gradualmente restaurada. Benoit Anne, responsável por análise de mercado da MFS Investment Management, embora prefira aguardar uma redução da volatilidade, acredita em uma recuperação ao longo do ano. Ele aponta que melhorias estruturais em diversas economias emergentes devem voltar a atrair investidores em busca de diversificação fora dos Estados Unidos.

Anne ressalta que os problemas fiscais e os choques de credibilidade não são mais uma característica predominante dos mercados emergentes. Essa mudança, aliada a valuations atrativos após as quedas recentes, pode configurar um ponto de entrada interessante para a reconstrução de posições compradas nesses mercados. Os mercados emergentes foram, em certo sentido, vítimas de seu próprio sucesso, com um choque tendendo a provocar uma correção quando as coisas vão muito bem.