Kora Saúde Revela Balanço Complexo: Crescimento Operacional Combate com Pressão Financeira em 2025
A Kora Saúde divulgou seus resultados financeiros referentes a 2025, apresentando um cenário de contrastes. Enquanto a operação da empresa demonstrou avanços notáveis, especialmente na área de oncologia e na geração de caixa operacional, o balanço final foi impactado negativamente por um resultado financeiro deteriorado e um aumento expressivo nos custos.
Esses números chegam em um momento delicado para o setor de saúde privada no Brasil, que vive uma fase de reestruturação. A Kora Saúde, assim como outras companhias do segmento, busca equilibrar o crescimento com a sustentabilidade financeira, o que se mostra um desafio complexo e urgente.
Os resultados da Kora Saúde em 2025, divulgados neste sábado (11), refletem a dificuldade em traduzir a melhora operacional em um alívio para sua estrutura de capital. A empresa avalia, inclusive, um pedido de recuperação extrajudicial, indicando a gravidade da situação financeira. Conforme informações divulgadas, a receita líquida da companhia subiu 5,1% em 2025, totalizando R$ 2,38 bilhões.
Oncologia se Destaca em Meio a Custos Crescentes
A área de oncologia continuou sendo um motor de crescimento para a Kora Saúde. No quarto trimestre de 2025, a receita dessa operação atingiu R$ 65 milhões, um aumento de 18,6% em relação ao mesmo período do ano anterior e de 32,3% em comparação com o trimestre anterior. No acumulado do ano, a linha oncológica somou R$ 221 milhões, representando um avanço de 17,3%.
No entanto, os custos dos serviços prestados apresentaram um crescimento mais acelerado, avançando 11,7% no quarto trimestre. Esse ritmo foi superior ao da receita, fazendo com que os custos representassem 82,8% da receita líquida, um aumento em relação aos 79,6% registrados no ano anterior. Materiais e medicamentos tiveram alta de 21,5%, e despesas com pessoal subiram 15,1%.
As despesas com utilidades e serviços tiveram um salto expressivo de 48,7%. Como consequência, a margem bruta da companhia recuou de 20,4% para 17,2% no período. Nas despesas gerais e administrativas, houve uma queda total de 16,1% no trimestre, mas com um aumento notável em stock options, que saltaram de R$ 1,2 milhão para R$ 12 milhões.
Perdas com Recebíveis e Ebitda Afetam o Resultado
Um dos pontos mais sensíveis divulgados pela Kora Saúde refere-se à provisão para devedores duvidosos. A linha de perda por redução ao valor recuperável de contas a receber atingiu R$ 151,9 milhões no quarto trimestre de 2025, um valor drasticamente superior aos R$ 4,9 milhões do mesmo período de 2024. As contas a receber de clientes somavam R$ 1,03 bilhão ao final de dezembro.
Essa situação impactou diretamente o Ebitda contábil, que caiu 76% no quarto trimestre, ficando em R$ 27,5 milhões. O Ebitda ajustado, que exclui itens extraordinários, totalizou R$ 118,6 milhões. A diferença de mais de R$ 91 milhões foi explicada por ajustes normalizadores e extraordinários, sendo que estes últimos somaram R$ 86,4 milhões no trimestre, impulsionados pela provisão para devedores duvidosos de exercícios anteriores no valor de R$ 70,8 milhões.
No acumulado do ano, os itens extraordinários totalizaram R$ 132,1 milhões, evidenciando a magnitude dos ajustes necessários para a Kora Saúde. O prazo médio de recebimento de clientes fechou o trimestre em 142 dias, um indicador de atenção para o fluxo de caixa da empresa.
Endividamento e Resultado Financeiro Pressionam a Companhia
A estrutura financeira da Kora Saúde apresentou uma deterioração significativa. O resultado financeiro líquido foi negativo em R$ 184,4 milhões no quarto trimestre, um aumento de 18,4% em relação ao ano anterior. No acumulado de 2025, o saldo negativo atingiu R$ 646,4 milhões, uma alta de 46,7%, com despesas financeiras totais de R$ 682,9 milhões.
Esse peso financeiro contribuiu para o prejuízo líquido de R$ 167,6 milhões no quarto trimestre e de R$ 421,3 milhões no ano. Mesmo no conceito ajustado, o prejuízo ficou em R$ 55,5 milhões no trimestre e R$ 183,5 milhões em 2025. A dívida líquida encerrou dezembro em R$ 2,51 bilhões, com um custo médio da dívida de CDI mais 3,09%.
A relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado fechou o ano em 4,67 vezes. Apesar de a empresa afirmar que cumpriu os covenants, o próprio release financeiro detalha waivers para emissões de debêntures em 2024 e 2025, indicando a necessidade de flexibilização nas exigências financeiras. A controlada Hospital Anchieta também enfrentou exigências de alavancagem semelhantes.
Geração de Caixa Operacional Dobra, Mas Não Suficiente para Aliviar Dívidas
Em um ponto positivo, a Kora Saúde reportou uma geração de caixa operacional de R$ 198,5 milhões em 2025, mais que o dobro do valor registrado em 2024. A conversão do Ebitda ajustado em caixa melhorou, atingindo 66,2% no quarto trimestre e 36,9% no acumulado do ano, um avanço em relação aos 18,6% de 2024.
No entanto, essa melhora na geração de caixa operacional ainda não foi suficiente para compensar o endividamento elevado e os custos crescentes. A situação da Kora Saúde reflete um cenário mais amplo de pressão financeira no setor de saúde privada, onde empresas como Oncoclínicas, Hapvida e Allianccedil;a também enfrentam desafios significativos. A saída da companhia do Novo Mercado da B3, em 2024, pela controladora HIG Capital, visava justamente ganhar flexibilidade para reduzir a queima de caixa, um objetivo que se mostra ainda distante.
