Mounjaro Dispara em Importações, Superando Ozempic e Wegovy com Tirzepatida em Março
As importações de Mounjaro, medicamento da americana Eli Lilly, atingiram um patamar inédito em março, superando significativamente os volumes de Ozempic e Wegovy, da dinamarquesa Novo Nordisk. Essa inversão de cenário é apontada por analistas do Citi, que monitoram o comércio de medicamentos “à base de polipeptídeos” como um indicador chave do mercado.
O principal princípio ativo do Mounjaro é a tirzepatida, enquanto Ozempic e Wegovy utilizam a semaglutida. Embora os dados oficiais de importação não diferenciem os medicamentos específicos, a origem das remessas oferece uma pista crucial. Importações vindas dos EUA e Alemanha, onde a Eli Lilly produz, indicam Mounjaro, enquanto remessas da Dinamarca apontam para os produtos da Novo Nordisk.
Os números divulgados pelo Citi revelam que as compras de peptídeos provenientes dos EUA e da Alemanha somaram US$ 350 milhões em março, mais que o dobro do registrado em fevereiro e o maior valor da série histórica acompanhada pela instituição. Em contraste, as importações da Dinamarca totalizaram apenas US$ 27 milhões, bem abaixo do recorde histórico de US$ 129 milhões alcançado em julho de 2024.
Mercado Paralelo e Operação Heavy Pen Revelam Escala do Problema
A mesma onda de alta demanda que impulsiona as importações oficiais também alimenta um mercado paralelo crescente. No dia seguinte à divulgação dos dados de março, a Anvisa e a Polícia Federal deflagraram a Operação Heavy Pen. A ação mirou farmácias de manipulação em 12 estados e expôs a dimensão do problema, com a apreensão de 3,5 quilos de tirzepatida, quantidade suficiente para produzir mais de 1 milhão de canetas injetáveis.
A movimentação financeira rastreada pela operação chegou a R$ 4,8 milhões. Além da tirzepatida, a operação identificou a presença de retatrutida, com ação similar aos princípios ativos mais conhecidos, e de glucagon, substância ainda em fase de estudo clínico e sem registro em nenhuma agência reguladora mundial. O glucagon foi apreendido em Goiás e apareceu em notas fiscais de empresas paulistas.
Semaglutida Genérica se Prepara para Ganhar Escala com Preços Reduzidos
Os dados do Citi reforçam a tese de que o mercado brasileiro de GLP-1 está se consolidando em dois segmentos. No mercado premium, a tirzepatida da Eli Lilly avança com força. Na outra ponta, a semaglutida, cujo princípio ativo perdeu a proteção de patente no Brasil em 20 de março, prepara-se para ganhar escala através da redução de preços.
O banco observa que a queda nas importações vindas da Dinamarca é coerente com a desaceleração nas vendas de semaglutida desde setembro de 2025. Com a queda da patente, mais de dez pedidos de registro de medicamentos à base de semaglutida aguardam análise da Anvisa. A EMS, que investiu mais de R$ 1,2 bilhão em uma planta de peptídeos, é considerada a mais adiantada e trabalha com uma faixa de preço entre R$ 500 e R$ 600 por caneta, um valor significativamente inferior aos R$ 963 a R$ 1.300 cobrados atualmente pelo Ozempic.
Concorrência de Genéricos Promete Redução de Custos e Aumento do Mercado
O BTG Pactual estima que a entrada de genéricos e similares possa adicionar R$ 3,6 bilhões ao mercado brasileiro de GLP-1 ainda em 2026, elevando o total para R$ 15,6 bilhões. A consultoria L.E.K. projeta que os custos da semaglutida podem cair em até 70% com o aumento da concorrência. Essa dinâmica de mercado, com alta demanda e oferta regulada limitada, explica em parte o que a Operação Heavy Pen encontrou.
Com preços elevados e estoques frequentemente limitados nas farmácias, o mercado informal se tornou um atalho perigoso, representando um risco sanitário. A diferença de preços com países vizinhos agrava o problema. No Paraguai, uma dose de Mounjaro de 2,5 mg custa cerca de R$ 294, contra mais de R$ 1.400 no Brasil, segundo estimativas do UBS. Essa disparidade incentiva compras em viagem, importação informal e revenda.
Medicamentos Manipulados e Substâncias Não Regulamentadas: Um Risco à Saúde
O fenômeno da manipulação irregular não se limita às canetas injetáveis. As autoridades encontraram mais de 17 mil frascos de tirzepatida manipulados sem autorização, centenas de gramas do insumo farmacêutico ativo da substância e até propofol e fentanil em um consultório odontológico que funcionava dentro de uma academia no Pará. Esses achados evidenciam a gravidade e os riscos à saúde pública associados ao mercado informal de medicamentos.
