O Fim do Varejo Tradicional? EUA Vêem Boom de Spas e Academias Superando Lojas Físicas

Nos Estados Unidos, o aluguel de espaços para empresas focadas em serviços, como salões de beleza, spas e academias, ultrapassou pela primeira vez na história o de lojas que vendem produtos físicos. Uma mudança significativa no cenário do varejo que reflete transformações nos hábitos dos consumidores e na dinâmica do mercado.

A ascensão de negócios voltados para o bem-estar e a aparência pessoal é notável. Empresas de serviços agora ocupam pouco mais de 50% da área total de varejo alugada nos EUA, de acordo com dados do CoStar Group. Quinze anos atrás, essa fatia era de apenas 40%, indicando um crescimento acelerado e contínuo.

Essa tendência é impulsionada por uma mudança clara nos gastos dos consumidores, que priorizam cada vez mais experiências e cuidados pessoais em detrimento de bens materiais. A conveniência e a necessidade de espaços físicos para serviços específicos, como tratamentos estéticos e atividades físicas, ganham força.

O avanço do comércio eletrônico também desempenha um papel crucial, diminuindo a necessidade de lojas físicas para a venda de produtos como roupas, calçados e materiais de escritório. Conforme informação divulgada pelo CoStar, os gastos dos consumidores continuam firmemente direcionados para serviços, e nada indica que essa tendência vá mudar tão cedo.

O Mercado de Bem-Estar em Expansão

O mercado de bem-estar nos Estados Unidos atingiu a impressionante marca de US$ 2,1 trilhões em 2024, segundo o Global Wellness Institute. Este setor abrange 11 áreas distintas, incluindo spas, beleza, nutrição, saúde mental e saúde pública, demonstrando a amplitude e a profundidade desse mercado em crescimento.

Antigamente, uma bolsa de grife podia ser o símbolo máximo de status. Hoje, o que denota um certo nível de prestígio é o investimento em experiências de autocuidado, como aulas de yoga, tratamentos faciais avançados e terapias inovadoras. A busca por uma melhor aparência e bem-estar tornou-se uma prioridade para muitos americanos.

Novos Serviços e Modelos de Negócios

Estabelecimentos oferecendo desde tratamentos faciais a laser, hidratação intravenosa e infusão de vitaminas, até procedimentos como Botox e terapia com luz vermelha, estão proliferando. A crioterapia, que utiliza temperaturas extremamente baixas para reduzir inflamações e acelerar a recuperação muscular, também ganha adeptos.

Brian Finnegan, CEO da Brixmor Property Group, observa que os consumidores se preocupam mais do que nunca com a aparência e o bem-estar. Ele exemplifica com um shopping center onde um espaço deixado por uma loja de bebidas foi dividido em quatro unidades menores, abrigando um hospital veterinário, uma rede de spas faciais, um estúdio de alongamento e um salão de manicure. Esses novos inquilinos geram 20% mais aluguel e atraem mais público.

Redes Sociais e o Impulso do Fitness

As redes sociais também têm um papel fundamental no impulsionamento de negócios focados na melhoria da aparência, desde salões de beleza que oferecem escovas rápidas até redes de depilação. O setor de academias, em particular, viu um crescimento expressivo.

As academias responderam por quase 30% dos contratos de locação de serviços no ano passado, um aumento significativo em relação aos 20% registrados em 2016, segundo a CoStar. Em bairros de Manhattan, marcas de autocuidado e fitness alugaram cerca de 9 mil metros quadrados nos últimos dois anos, com a abertura de saunas, estúdios de pilates e academias especializadas.

Noah Neiman, cofundador da Rumble Boxing, destaca a importância da socialização pós-pandemia, descrevendo seu novo estúdio de defesa pessoal e fitness em grupo como “o novo happy hour”. A rede Planet Fitness, por exemplo, adicionou mais de um milhão de membros no último ano e planeja abrir quase 200 novas unidades em 2026.

Impacto do E-commerce e Medicamentos

O aumento das vendas online reduziu a necessidade de espaço físico para muitos varejistas de vestuário e produtos de higiene. O e-commerce representou 16,4% das vendas totais de varejo no ano passado, contra cerca de 8% em 2016, segundo o Departamento de Comércio dos EUA. Muitas lojas de roupas estão, inclusive, diminuindo o tamanho de suas unidades físicas.

Apesar da consolidação do e-commerce, a vacância no varejo nos EUA permanece baixa, em 4,4%, próxima de mínimas históricas. Isso se deve, em grande parte, à forte demanda por espaços por empresas de serviços, que frequentemente ocupam locais deixados por varejistas que fecharam as portas.