Lavoro e AgroGalaxy: O Fim de um Ciclo de Ouro para Revendas Agrícolas e o Começo de uma Nova Era sob Nova Gestão
O agronegócio brasileiro, outrora visto como a estrela em ascensão nos mercados financeiros, vive um momento de ajuste. Duas das maiores plataformas de revenda de insumos, Lavoro e AgroGalaxy, que foram criadas com grande pompa e investimento de fundos de private equity, agora buscam se reerguer sob a gestão de casas especializadas em “special situations”, ou seja, empresas em dificuldades financeiras.
Essas transações marcam um novo capítulo, com um aparente desfecho, para uma aposta outrora ambiciosa da indústria de private equity no setor. Criados para executar teses de consolidação e ganho de escala, esses fundos acabaram saindo de cena em meio a uma crise que derrubou receitas e levou ao fechamento de dezenas de lojas pelo país, deixando credores e investidores com perdas significativas.
A reviravolta representa também um desfecho inesperado para um setor que, poucos anos atrás, era apontado como a próxima grande fronteira de consolidação do agronegócio brasileiro. O cenário que antes prometia riqueza agora exige reestruturação e um novo olhar sobre o modelo de negócios. Conforme informação divulgada pela fonte original, o setor como um todo sofreu, e os casos de Lavoro e AgroGalaxy são apenas os mais visíveis de um quadro de dificuldades financeiras que atingiu praticamente toda a indústria de distribuição de insumos agrícolas.
Um Início Promissor e a Tese de Consolidação
Em julho de 2021, a AgroGalaxy abriu capital na B3, captando cerca de R$ 350 milhões para financiar uma estratégia agressiva de consolidação do mercado. A ideia era crescer em market share por meio de aquisições de concorrentes, concentrando a venda de insumos agrícolas para produtores rurais e consolidando um setor historicamente fragmentado.
A tese parecia lógica, considerando que o agro responde por cerca de um quarto do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Naquele mesmo ano, a Lavoro, com respaldo do Patria Investimentos, comprava revendas agrícolas pelo interior do país, formando uma das maiores plataformas de distribuição de insumos da América Latina e abrindo capital na Nasdaq em março de 2023.
A consolidação das revendas ganhou força justamente no auge do ciclo de commodities agrícolas, momento em que produtores estavam capitalizados e o consumo de fertilizantes, defensivos e sementes crescia rapidamente. Os valores de empresas adquiridas estavam mais altos e as projeções de retorno sobre o investimento pareciam mais favoráveis.
A Virada do Ciclo e as Fragilidades Reveladas
Contudo, quando o ciclo de commodities virou, o modelo de negócios começou a mostrar suas fragilidades. A crise das revendas coincidiu com um aumento expressivo das dificuldades financeiras no campo. O agronegócio brasileiro registrou quase 2 mil pedidos de recuperação judicial em 2025, segundo dados da Serasa Experian, mais de dez vezes o número observado em 2021.
Além de Lavoro e AgroGalaxy, outras empresas como Nutrien, Sinagro, Agro Amazônia, Fiagril e Belagrícola também enfrentaram problemas financeiros. A Belagrícola, por exemplo, atravessa um conturbado processo de recuperação extrajudicial para lidar com R$ 2,2 bilhões em dívidas.
Eric Emiliano, sócio da L.E.K. Consulting, destaca que “todas tiveram algum tipo de problema financeiro nos últimos dois anos, sem exceção”. Ele explica que a crise nas revendas também se somou a dificuldades estruturais no setor.
Três Problemas Estruturais que Pressionaram o Modelo
Um dos principais fatores foi a transformação do mercado global de defensivos agrícolas. Com o fim da patente de muitas moléculas, o mercado foi inundado por versões genéricas, reduzindo drasticamente as margens de toda a cadeia. O que antes era como vender um “medicamento inovador”, hoje, em muitos casos, se assemelha a vender um “paracetamol”, segundo Emiliano.
O segundo fator foi o colapso do modelo de crédito que historicamente sustentava o setor. Distribuidores de insumos funcionavam como um banco informal para o agricultor, comprando a prazo da indústria e revendendo com prazos ainda maiores, muitas vezes por meio de operações de barter. Quando a inadimplência ultrapassa 10% e a margem é de 5%, o negócio deixa de fechar as contas.
O terceiro elemento veio da própria dinâmica do campo. Durante o boom de commodities, muitos produtores se alavancaram com dívidas. Quando os preços agrícolas recuaram e os juros subiram, esse endividamento começou a pesar, deixando os produtores com contas altas para pagar e menos margens para investir, o que impactou diretamente as revendas.
Um Novo Caminho para a Distribuição de Insumos
A Lavoro negociou uma recuperação extrajudicial de cerca de R$ 2,5 bilhões com fornecedores, saiu da Nasdaq e vendeu sua operação no Brasil para a Arcos Gestão e Investimentos. Já a AgroGalaxy, com um passivo próximo de R$ 4,7 bilhões, está sob administração da Tauá Partners, que conduz a reestruturação.
As iniciativas de lançar marcas próprias de sementes e defensivos, e de ampliar serviços agronômicos, como as tentadas por AgroGalaxy e Lavoro, foram boas, mas “não deu tempo de fazer isso funcionar”, conforme Emiliano. O setor de distribuição de insumos continua essencial, movimentando dezenas de bilhões de dólares por ano, mas o modelo de negócios está sendo redesenhado.
O caminho, segundo o consultor, passa por ampliar serviços e reconstruir a proximidade com o produtor, a exemplo do que já fazem muitas cooperativas agrícolas. A crise representa um esgotamento do modelo antigo, não de quem estava operando. Para um setor que parecia destinado à rápida consolidação, a lição se mostrou cara e onerosa, com bilhões de reais em dívidas reestruturadas e a percepção de que, no agronegócio brasileiro, escala financeira não substitui o relacionamento construído no campo.
