O Fim do Verdadeiro Chocolate? Gordura Vegetal Substitui Cacau e Cria ‘Gosto de Parafina’ nos Doces Brasileiros

O sabor chocolate invadiu os doces brasileiros, mas o cacau verdadeiro está cada vez mais raro. Descubra a transformação que alterou a textura e o gosto dos chocolates consumidos no país, levando a uma nova realidade sensorial com o chamado ‘gosto de parafina’.

O que antes era um prazer inconfundível, hoje se disfarça. Muitos ovos de Páscoa e chocolates em geral parecem ter perdido sua essência. Eles não derretem mais com a mesma facilidade e deixam uma sensação oleosa na boca, um resíduo que consumidores atentos já apelidaram de “gosto de parafina”.

Essa mudança não é acidental. O chocolate brasileiro, em parte, se tornou um simulacro, uma versão legalmente aceita do produto original. A base agora é gordura vegetal, aromatizantes e a quantidade mínima de cacau permitida por lei, uma adaptação que reflete complexidades da cadeia produtiva e pressões econômicas. Conforme informação divulgada pelo InvestNews, essa transformação é resultado de uma jornada que envolve desde as fazendas de cacau até laboratórios e discussões tributárias.

A indústria global de chocolates, incluindo gigantes como Nestlé e Mondelēz, além da associação Abicab, optou por não comentar o assunto, deixando o consumidor a mercê das reformulações. No entanto, a origem dessa mudança tem raízes profundas na produção do cacau e nas dinâmicas do mercado internacional.

A Crise do Cacau e a Busca por Alternativas

O cacaueiro é uma planta sensível, que demanda cuidados específicos e tempo para florescer. O Brasil já enfrentou um golpe severo com a praga vassoura de bruxa no final dos anos 1980, que dizimou lavouras na Bahia e abalou a produção nacional. Globalmente, a situação não é mais favorável, com países como Costa do Marfim e Gana, responsáveis por 60% do cacau mundial, sofrendo com doenças que afetam as plantações.

Eventos climáticos extremos agravaram a escassez, impactando a oferta e elevando os preços. Quando as safras africanas falham, o mercado sente o reflexo, e a demanda por alternativas mais baratas se intensifica, pressionando a indústria a buscar substitutos.

O Papel das Moageiras e a Substituição da Manteiga de Cacau

O cacau processado no Brasil passa por grandes moageiras como Cargill, Olam e Barry Callebaut. Elas transformam a amêndoa em massa e manteiga de cacau, os dois componentes essenciais para a produção de chocolate. Contudo, a oferta de cacau é inelástica, ou seja, não aumenta facilmente mesmo com preços mais altos. Isso força as moageiras a comprar matéria-prima com antecedência, apostando em uma demanda futura.

A partir de 2023, essa aposta se mostrou arriscada. Com a disparada do preço do cacau nos mercados futuros, chegando perto de US$ 13 mil por tonelada no fim de 2024 devido a quebras de safra na África, a indústria de chocolate reagiu. Muitas empresas reduziram a quantidade de cacau em suas receitas, optando pela substituição da manteiga de cacau por gorduras vegetais, como a de palma ou soja.

Essa substituição não é apenas uma questão de custo, mas também de física. A manteiga de cacau derrete a cerca de 34°C, abaixo da temperatura da boca, garantindo a dissolução imediata e a liberação de aromas. As gorduras vegetais substitutas fundem acima de 38°C, não derretem completamente e deixam o indesejado “gosto de parafina”.

Regulamentação e a Percepção do Consumidor

A legislação brasileira, através de uma resolução da Anvisa, estabelece que, para ser chamado de “chocolate”, um produto deve conter pelo menos 25% de sólidos totais de cacau. Abaixo disso, o rótulo deve indicar “cobertura sabor chocolate” ou “alimento sabor chocolate”. Essa distinção, porém, muitas vezes aparece em letras minúsculas, enquanto “chocolate” estampa a embalagem em destaque.

Pesquisas recentes revelam que, em muitas reformulações, o cacau é simplesmente removido ou reduzido drasticamente, com a embalagem exibindo apenas um “Nova Fórmula”. A ciência, por meio de estudos na USP, desenvolveu métodos para medir o teor real de cacau, mostrando variações significativas entre marcas, com chocolates em pó apresentando entre 16% e 70% de cacau e achocolatados entre 6% e 30%.

Um caso emblemático é o dos bombons Sonho de Valsa e Ouro Branco, da Lacta. A empresa reclassificou seus produtos de “chocolates contendo cacau” para “wafers recheados e revestidos”, com alíquota de imposto zerada, e alterou a denominação para “cobertura sabor chocolate”. Essa manobra gerou uma economia fiscal astronômica, enquanto a qualidade sensorial percebida pelo consumidor foi na direção oposta.

O Movimento Bean to Bar e o Futuro do Chocolate

Em contrapartida, o movimento “bean to bar” (da amêndoa à barra) ganha força no Brasil desde os anos 2010. Chocolateiros artesanais compram o cacau diretamente do produtor, controlando todo o processo. Eles defendem que o cacau, assim como o vinho, tem representações sensoriais distintas de acordo com a origem e o terroir.

Barras “bean to bar” de marcas como a Baianí indicam o percentual de amêndoa integral utilizada, sem separação de massa e manteiga, resultando em um produto com sabor mais autêntico e complexo. Uma barra de 70% cacau, por exemplo, custa cerca de R$ 35, um valor que reflete a qualidade e o processo artesanal.

O debate sobre a definição de chocolate chegou ao Congresso Nacional. A Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que eleva o piso mínimo de cacau em chocolates intensos para 35% de sólidos totais. A Abicab se manifestou contra, alegando impactos econômicos. No entanto, a nova lei pode, paradoxalmente, levar grandes players a oficializar o “alimento sabor chocolate” como categoria principal, forçando o consumidor a saber, pela primeira vez, o que realmente está comprando.