O sucesso industrial da China virou um problema diplomático, e Pequim sabe disso
O primeiro-ministro chinês, Li Qiang, sinalizou que Pequim está ciente do crescente desconforto internacional com seu massivo superávit comercial. Em um discurso recente, ele prometeu responder às preocupações de parceiros comerciais, indicando uma tentativa de gerenciar as relações diplomáticas em meio a uma trégua na disputa tarifária com os Estados Unidos.
Essa postura busca evitar que o tema do desequilíbrio comercial prejudique ainda mais as relações da China com outros países. A força de suas exportações, embora um motor de crescimento, tem gerado apreensão sobre o futuro das indústrias em nações parceiras.
A promessa de Pequim surge em um contexto de recordes comerciais e tensões crescentes, como alertou a União Europeia. As autoridades chinesas já implementaram algumas medidas para mitigar essas preocupações, mas a economia interna apresenta fragilidades que complicam o cenário.
Pequim Promete Abertura e Mais Importações
Em um discurso no Fórum de Desenvolvimento da China, Li Qiang declarou que o país leva a sério as preocupações de seus parceiros comerciais. “Estamos prontos para trabalhar com todas as partes para promover um desenvolvimento saudável e equilibrado do comércio”, afirmou. Ele também anunciou planos para expandir o acesso ao mercado no setor de serviços e aumentar as importações de produtos médicos, tecnologias digitais e serviços de baixo carbono.
Essas medidas visam oferecer mais oportunidades de negócios para empresas estrangeiras na China. O país registrou um superávit comercial recorde de US$ 1,2 trilhão no ano passado, e as exportações continuaram em alta nos primeiros meses deste ano, intensificando a preocupação global com a competitividade industrial.
Tensões Comerciais e Desafios Internos
A guerra comercial entre Estados Unidos e China, iniciada em 2025, foi colocada em pausa, mas as preocupações com o desequilíbrio comercial persistem. O presidente francês, Emmanuel Macron, já havia alertado que a União Europeia poderia adotar “medidas fortes”, incluindo tarifas, caso o problema não fosse enfrentado.
Em resposta, as autoridades chinesas já reduziram incentivos tributários para a exportação de centenas de produtos, como células solares e baterias. No entanto, essa robustez industrial convive com uma economia doméstica enfraquecida por um consumo interno baixo e excesso de capacidade em setores como o de energia solar, que enfrenta concorrência acirrada nos preços.
Visões Divergentes Sobre o Superávit
O presidente do Banco do Povo da China, Pan Gongsheng, defendeu o superávit em conta corrente do país, argumentando que ele é alocado globalmente através de investimentos externos de empresas e bancos chineses. Segundo ele, esse superávit “tem sustentado o crescimento econômico global e a estabilidade financeira”.
Por outro lado, Dan Katz, número 2 do Fundo Monetário Internacional, sugeriu que Pequim poderia estimular mais o consumo e a demanda doméstica, especialmente por serviços. Ele recomendou elevar a renda das famílias e reduzir incentivos à poupança, deslocando recursos de subsídios industriais para programas de proteção social e estabilização do setor imobiliário.
Riscos Geopolíticos e Setoriais
A guerra no Irã também adiciona incertezas à economia chinesa, com a possibilidade de aumento nos custos de combustíveis e matérias-primas, o que poderia pressionar ainda mais as margens de lucro da indústria. Li Qiang, embora sem mencionar diretamente o conflito, expressou preocupação com o desenvolvimento de “focos de tensão”.
O Fórum de Desenvolvimento da China, evento que reúne CEOs de grandes corporações e autoridades, também foi palco de comentários sobre a relação entre a China e empresas estrangeiras. O CEO da Apple, Tim Cook, elogiou as inovações chinesas, dias após o principal jornal do Partido Comunista criticar a empresa por práticas monopolistas. A ausência de executivos japoneses na lista oficial de participantes também reflete a deterioração das relações entre Pequim e Tóquio.
