Inpasa: De Origem Paraguaia à Gigante do Etanol de Milho, Lucrando Além do Combustível no Brasil

Inpasa se consolida como líder no etanol de milho, transformando grãos em múltiplos produtos e faturando bilhões.

A Inpasa, empresa de origem paraguaia, alcançou o posto de maior produtora de etanol de milho da América Latina, com uma receita que se aproxima de R$ 23 bilhões. Seu modelo de negócio inovador vai muito além da produção de combustível, transformando cada tonelada de milho em uma gama de produtos de alto valor agregado, como ração animal e óleo industrial.

Fundada pelo empresário José Odvar Lopes, conhecido como “Seu Zé”, a companhia construiu ao longo da última década uma robusta rede de biorrefinarias agrícolas. Com usinas estrategicamente localizadas em seis estados brasileiros e um plano de investimentos superior a R$ 5 bilhões, a Inpasa demonstra uma visão de crescimento ambiciosa e sustentável.

A estratégia central da Inpasa reside na máxima extração de valor do milho. O sucesso da empresa não se limita à venda de etanol, mas abrange a comercialização de todos os coprodutos gerados no processo, garantindo rentabilidade e resiliência em um mercado competitivo. Essa abordagem, detalhada por Fernando Alfini, CFO da companhia, ao InvestNews, tem sido fundamental para a trajetória de sucesso da empresa.

Do Risco à Liderança: A Trajetória de Sucesso da Inpasa no Etanol de Milho

A ascensão da Inpasa no mercado brasileiro de etanol de milho foi marcada por desafios significativos. Na década passada, o setor era dominado pela cana-de-açúcar, e o etanol de milho era visto como uma aposta de alto risco. A empresa, que iniciou suas operações no Paraguai com uma única usina, superou gigantes do setor, como a Raízen, para se tornar líder na América Latina.

“Nós sempre recebemos umas perguntas de instituição financeira: qual é o breakeven do negócio, em que momento vale a pena transformar o milho em etanol?”, relata Fernando Alfini, CFO da Inpasa. Ele complementa, com um toque de humor, que a empresa tem se dedicado a desvendar essa questão por mais de 15 anos, demonstrando a complexidade e a inovação por trás do modelo de negócio.

A eficiência na conversão do milho em etanol tem sido um pilar fundamental. Inicialmente, a cada tonelada de milho, eram gerados cerca de 220 litros de etanol. Hoje, com tecnologia aprimorada, as usinas da Inpasa extraem aproximadamente 450 litros por tonelada, um aumento expressivo que reflete o investimento em pesquisa e desenvolvimento, e a aquisição de tecnologia americana da Katzen.

Expansão Estratégica e a Revolução Logística da Inpasa

A decisão de expandir para o Brasil em 2018 foi um marco na história da Inpasa. A escolha por Sinop, no Mato Grosso, principal polo de agronegócio do país, foi estratégica. A abundância de matéria-prima e o potencial de crescimento do mercado brasileiro foram fatores decisivos para a instalação de novas usinas.

A rede de biorrefinarias da Inpasa se expandiu rapidamente, com unidades em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Maranhão. Novas plantas estão previstas na Bahia e em Goiás, totalizando dez unidades operacionais. Essa diversificação geográfica visa otimizar a logística e o acesso a mercados consumidores e portos para exportação de coprodutos.

Para escoar a produção de quase 6 bilhões de litros de etanol anuais, a Inpasa tem investido maciçamente em logística. A aquisição de vagões e locomotivas para o modal ferroviário é um passo importante para reduzir a dependência do transporte rodoviário e aumentar a competitividade. A empresa também construiu uma capacidade de armazenagem de mais de 5,6 milhões de toneladas, garantindo seis meses de produção sem depender do ritmo da colheita.

Diversificação de Receitas: O Valor Além do Etanol

O modelo de negócio da Inpasa se destaca pela capacidade de extrair valor de todos os subprodutos do milho. O DDGS (grãos secos de destilaria com solúveis) e o óleo de milho já representam cerca de 15% da receita da empresa, somando aproximadamente R$ 4 bilhões anuais. Esses coprodutos chegam a cobrir entre 35% e 40% do custo de aquisição do milho.

O DDGS, um farelo rico em proteína para alimentação animal, tem sido uma das principais apostas de agregação de valor. A Inpasa desenvolveu um processo produtivo diferenciado, que não utiliza ácido sulfúrico nem antibióticos, o que garante um produto de maior qualidade e abre portas em mercados internacionais exigentes. A empresa já responde por mais de 95% das exportações brasileiras de DDGS.

A Inpasa projeta um crescimento expressivo na produção e exportação de DDGS, com estimativas de 7 milhões de toneladas até a safra 2029/30. A entrada da China no mercado de importação de DDGS brasileiro, com um primeiro navio de 62 mil toneladas em 2026, reforça o potencial de crescimento deste segmento.

Governança e Futuro: Preparação para Novos Horizontes

Em paralelo à sua expansão industrial, a Inpasa tem fortalecido sua estrutura de governança corporativa. José Odvar Lopes assumiu a presidência do conselho, enquanto seu filho, Éder, lidera a presidência executiva. A companhia também está estruturando um conselho consultivo com nomes de peso do mercado financeiro, como José Olympio Pereira, ex-CEO do banco J. Safra.

Essa reestruturação sinaliza a preparação da Inpasa para um futuro de novas oportunidades, incluindo a possibilidade de uma oferta pública inicial de ações (IPO) ou emissões de dívida no exterior. A empresa tem financiado sua expansão com capital próprio e captou cerca de R$ 1,5 bilhão em debêntures incentivadas, demonstrando sua solidez financeira.

A Inpasa nega qualquer negociação para se tornar sócia estratégica da Petrobras na produção de etanol, desmentindo boatos que circularam no mercado. Quanto à Vibra Energia, onde Seu Zé detém participação, Alfini afirma que a empresa será tratada como mais um cliente, sem discussões formais de parceria.