Oncoclínicas encolhe operação após prejuízo bilionário e busca fôlego com credores
A Oncoclínicas, referência nacional em tratamento oncológico privado, está passando por um processo de reestruturação drástica após registrar um prejuízo líquido consolidado de R$ 1,38 bilhão em 2025. A companhia, que já enfrentou perdas contábeis ainda maiores, busca sobreviver focando em suas clínicas ambulatoriais e se desfazendo de ativos hospitalares considerados mais complexos e caros.
A estratégia visa priorizar o atendimento aos pacientes em clínicas, enquanto os hospitais, que demandam maior investimento e estrutura, estão sendo vendidos. A empresa já concluiu a venda do Hospital de Uberlândia (UMC) e negocia a saída do Hospital Vila da Serra, em Belo Horizonte. Outras unidades, como o Hospital Marcos Moraes no Rio de Janeiro, estão em reavaliação.
Além da venda de ativos, a Oncoclínicas suspendeu sua agenda de expansão, cancelando projetos de novos centros de tratamento em São Paulo e Belo Horizonte e buscando alternativas para um empreendimento em Goiânia. A situação financeira delicada também levou a companhia a negociar com credores a flexibilização de cláusulas contratuais, diante do descumprimento dos índices de alavancagem. Conforme informação divulgada pela própria companhia, a dívida líquida encerrou 2025 em R$ 2,9 bilhões, com alavancagem de 3,5 vezes o lucro operacional ajustado, superando o limite de 4,3 vezes estabelecido pelos credores.
Perdas expressivas e bloqueio de recursos impactam finanças
O **prejuízo bilionário** da Oncoclínicas em 2025 foi fortemente influenciado por duas perdas significativas. A primeira, no valor de R$ 864,9 milhões, decorre de valores não recebidos da Unimed do Rio de Janeiro, que deixou de honrar seus pagamentos. A segunda, de R$ 430,9 milhões, refere-se a investimentos em CDBs do Banco Master, que ficaram bloqueados após a liquidação da instituição pelo Banco Central.
Esses eventos, somados a uma gestão de custos e expansão acelerada, agravaram a crise de liquidez da empresa. A agência de classificação de risco Fitch rebaixou a nota da Oncoclínicas para RD(bra), indicando um **default restrito**, o que sinaliza que a companhia já deixou de cumprir parte de suas obrigações financeiras, apesar de ainda não ter parado todos os pagamentos.
Crise de governança e saída de executivos agravam cenário
A instabilidade financeira da Oncoclínicas também se reflete em sua estrutura de governança. Recentemente, Marcelo Gasparino renunciou à presidência do conselho de administração, o que acarretou a destituição de todo o colegiado eleito. Uma nova eleição foi convocada para o final de abril.
Anteriormente, em março, Camille Loyo Faria deixou os cargos de vice-presidente executiva, diretora financeira e diretora de relações com investidores, após pouco mais de um mês na empresa. A saída de Faria, que teve papel central na reestruturação da Americanas e na recuperação judicial da Oi, gerou preocupações sobre a capacidade da empresa em estabilizar sua situação.
Mercado e médicos demonstram cautela com a Oncoclínicas
A percepção do mercado sobre a saúde financeira da Oncoclínicas piorou consideravelmente. Relatórios de analistas, como o do BTG Pactual, indicam que, embora existam iniciativas para endereçar a situação, a visibilidade sobre a recuperação ainda é limitada. A agência Fitch, em seu relatório, avalia que a liquidez da empresa é insuficiente para honrar suas dívidas.
Internamente, a crise já começa a afetar o corpo clínico. Em fevereiro, notícias indicavam a saída de médicos da Oncoclínicas em busca de oportunidades em concorrentes, o que é preocupante, visto que a empresa empregava cerca de 18% de todos os oncologistas do Brasil. Fornecedores e potenciais parceiros também adotaram uma postura mais cautelosa diante do perfil de crédito da companhia.
A falta de clareza sobre a exposição da Oncoclínicas ao Banco Master, que chegou a deter 15% da companhia, também contribui para o receio de médicos e investidores, que buscam maior segurança em tempos de incerteza financeira e de governança.
