A escalada do preço do diesel no Brasil: um reflexo direto da guerra no Irã e o aperto na Petrobras.
A recente guerra no Irã, que já dura 14 dias, está provocando um aumento expressivo de 50% no preço do diesel no mercado internacional, superando até mesmo a valorização do petróleo. Essa disparada impacta diretamente o Brasil, onde uma parcela significativa do diesel consumido é importada, devido à capacidade de refino nacional ser insuficiente para atender à demanda interna.
A dependência de importações para suprir cerca de 25% do consumo de diesel no país torna o Brasil vulnerável às flutuações do mercado global. Como resultado, os preços nos postos brasileiros já sentiram o impacto, com uma alta de 12% na última semana, segundo a ANP. Dados do sistema TruckPag revelam um aumento ainda mais acentuado de 18,75% desde o final de fevereiro.
É nesse cenário de pressão internacional que a Petrobras anunciou seu primeiro reajuste no preço do diesel em refinarias após 312 dias. O aumento de R$ 0,38 por litro, elevando o preço para R$ 3,65, contudo, ainda está longe de cobrir a defasagem em relação ao mercado internacional. A Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) estima que o preço ideal seria de R$ 5,61 por litro para equiparar os custos.
A defasagem de preços e a pressão sobre a Petrobras
A diferença entre o preço de venda da Petrobras e o custo internacional se tornou um ponto crucial para entender o impacto da guerra no mercado brasileiro. Com o aumento das cotações globais, os importadores se veem obrigados a adquirir diesel a um custo consideravelmente mais alto do que o praticado pela estatal, que domina 84% do parque de refino nacional. Essa situação eleva a pressão sobre a Petrobras para garantir o abastecimento do mercado.
Diante da dificuldade em suprir a demanda crescente a preços internacionais elevados, a Petrobras chegou a recusar pedidos extras de diesel. O recente reajuste nos preços de refinaria é uma tentativa de gerenciar a demanda e mitigar o risco de uma crise de abastecimento, buscando equilibrar os custos e a disponibilidade do combustível.
Medidas do governo e o impacto inflacionário
O governo brasileiro tem buscado amortecer o choque dos preços do diesel através de medidas indiretas. Na última quinta-feira, foram zerados os tributos federais sobre o diesel e anunciada uma subvenção para produtores e importadores. O objetivo é conter o avanço dos preços domésticos e minimizar o impacto na inflação geral da economia.
A alta no preço do diesel tem um efeito cascata em praticamente todos os setores da economia, uma vez que o custo do frete é um componente essencial na cadeia produtiva. Esse aumento nos custos de transporte acaba sendo repassado ao consumidor final, pressionando a inflação para cima e afetando o poder de compra da população.
O bloqueio do Estreito de Ormuz e a perspectiva de longo prazo
A situação é agravada pelo fechamento do Estreito de Ormuz, uma passagem marítima estratégica entre o Irã e Omã. O bloqueio dessa via, com apenas 3,7 km de largura, tira de circulação cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia, o que representa um quinto do suprimento global. Essa restrição contribui para a manutenção do preço do barril de petróleo acima de US$ 100, patamar não visto desde 2022, com a invasão da Ucrânia.
Enquanto não houver um cessar-fogo no Irã, as medidas adotadas para conter os preços do diesel no Brasil podem ser insuficientes. A volatilidade do mercado internacional, intensificada pelo conflito, continuará a exercer pressão sobre os custos de importação e, consequentemente, sobre os preços nas bombas.
Gasolina versus Diesel: a diferença no impacto para o Brasil
É importante notar que o impacto da guerra no Irã sobre o preço da gasolina no Brasil é consideravelmente menor. O país importa apenas entre 6% e 7% do diesel que consome, e a frota de carros flex, que utilizam etanol, ajuda a moderar a demanda por gasolina. No caso do diesel, contudo, não há escapatória: a alta nos preços internacionais se reflete de forma automática e direta nos preços praticados no mercado doméstico, como evidenciado pelos valores nas bombas.
