Megaleilão de Energia Térmica: Eneva e Âmbar na Disputa, Mas Gargalo Global de Turbinas Ameaça Sucesso

Megaleilão de Energia Térmica: Eneva e Âmbar na Disputa, Mas Gargalo Global de Turbinas Ameaça Sucesso

O Brasil se prepara para o segundo Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência (LRCAP), agendado para quarta-feira (18). O evento, que visa contratar usinas capazes de fornecer energia despachável em momentos de pico, atrai gigantes como Eneva e Âmbar Energia. Contudo, um obstáculo global na fabricação de turbinas pode comprometer o resultado deste que é o maior certame de capacidade da história recente do país.

A demanda mundial por turbinas a gás disparou nos últimos anos, impulsionada pela expansão de data centers, pela crise energética na Europa e por programas de reforço de capacidade em diversos países. Essa corrida global por equipamentos já comprometeu boa parte da produção dos próximos anos, criando um cenário desafiador para os participantes do leilão brasileiro.

Empresas que chegaram antes garantiram melhores condições e prazos de entrega. Quem deixou para depois, agora enfrenta filas que se estendem até o fim da década e preços significativamente mais altos. Essa escassez de equipamentos, um gargalo industrial pouco visível para o consumidor final, pode ser o grande vilão do leilão. Conforme informação divulgada pelo setor, as estimativas apontam para uma contratação de até 30 gigawatts (GW) de capacidade, o que seria mais que o dobro da capacidade de Itaipu.

A Corrida Global por Turbinas e o Impacto no Leilão

O mercado de turbinas a gás está aquecido globalmente. Segundo o Instituto de Economia de Energia e Análise Financeira (IEEFA), em 2024 foram encomendados cerca de 80 gigawatts em turbinas a gás no mundo. Esse volume é quase três vezes superior à capacidade anual combinada de produção dos três maiores fabricantes globais – GE Vernova, Siemens Energy e Mitsubishi Heavy Industries –, estimada em cerca de 30 gigawatts por ano.

Essa alta demanda resulta em um mercado travado, com carteiras de pedidos que se estendem até o final da década. Executivos do setor estimam que praticamente toda a capacidade de produção de turbinas a gás até 2030 já esteja reservada ou em negociação. Para garantir uma posição na linha de produção, fabricantes exigem depósitos milionários, com um caso reportado de um desenvolvedor de usina que adiantou US$ 25 milhões apenas para reservar uma turbina com entrega prevista para 2030.

Esse cenário de escassez e aumento de custos de equipamentos é um dos fatores que explicam por que alguns projetos chegam ao leilão em condições muito mais vantajosas do que outros. Empresas que já possuíam usinas existentes ou infraestrutura instalada antes da escalada global de preços largam na frente.

Delta Energia: Experiência e Sinergia como Vantagens Competitivas

A Delta Energia, por exemplo, pretende participar do leilão com quatro projetos em Mato Grosso do Sul, totalizando um investimento estimado em R$ 1 bilhão. A empresa planeja a ampliação de sua usina William Arjona, a construção de uma nova termelétrica a gás natural de 250 megawatts, e duas usinas movidas a biodiesel de 150 e 30 megawatts, respectivamente.

Todos os projetos se beneficiam da localização próxima à usina existente e ao Gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol). Além disso, a Delta Energia é produtora de biodiesel, o que gera uma sinergia natural entre a geração de energia e o fornecimento de combustível. “Existe toda uma sinergia por trás, e isso nos traz competitividade”, afirma Lourival Teixeira, executivo que lidera a área de geração do grupo Delta Energia.

A empresa recentemente concluiu a modernização de sua usina William Arjona, entregando a última unidade geradora uma semana antes do prazo previsto no contrato com o governo. Este projeto, que envolveu investimentos de R$ 200 milhões, consistiu na desmontagem e reconstrução interna das turbinas, transformando-as em equipamentos praticamente novos.

O Papel das Termelétricas na Matriz Energética Brasileira

O papel das usinas termelétricas na matriz energética brasileira tem se transformado. Inicialmente vistas com ceticismo em um cenário de expansão de fontes renováveis, elas se mostraram cruciais durante a crise hídrica de 2021, evitando riscos de apagão. Atualmente, com o excesso de energia em determinados horários devido à geração solar e eólica, o desafio passa a ser o fornecimento de energia no horário de ponta, quando a produção fotovoltaica diminui e o consumo permanece elevado.

É nesse intervalo que se torna essencial a atuação de usinas despacháveis, capazes de entrar rapidamente em operação para equilibrar oferta e demanda. O leilão desta quarta-feira definirá quantos dos 368 projetos inscritos, que somam mais de 126 GW, conseguirão atender a todas as exigências, incluindo o acesso a equipamentos em um mercado cada vez mais concorrido.