Honda enfrenta um futuro incerto com prejuízos bilionários e estratégia de elétricos em xeque.
A Honda chocou o mercado ao anunciar uma baixa contábil de US$ 15,7 bilhões, em grande parte devido a uma aposta mal calculada em veículos elétricos. Essa decisão pode levar a montadora japonesa ao seu primeiro prejuízo anual da história.
No entanto, os desafios da Honda vão muito além da sua recente e problemática incursão no mercado de carros elétricos. A empresa, historicamente conhecida por inovações, tem lutado para manter sua reputação de vanguarda nos últimos anos, especialmente em seu maior mercado, os Estados Unidos.
A dificuldade em inovar e a estratégia de elétricos tardia são apenas parte de um cenário mais complexo. Os problemas da Honda na área automotiva são mais antigos e profundos do que se imaginava, afetando a empresa antes mesmo da corrida pelos elétricos ganhar força. Conforme informações divulgadas pela Bloomberg Intelligence, os resultados fracos do negócio principal de automóveis são anteriores aos problemas com elétricos, e as perdas com estes simplesmente foram grandes demais para serem compensadas.
Atraso na Eletrificação e Perda de Vantagem Híbrida
A Honda, pioneira em híbridos nos EUA com o Insight, hoje oferece uma gama limitada de quatro modelos híbridos, contrastando com os 29 da Toyota. Apesar de metas ambiciosas, a produção de híbridos nos EUA está sendo reduzida, enquanto rivais como Toyota e Ford expandem suas ofertas, tornando híbridos em versões de seus modelos mais vendidos, como o Camry e a picape F-150.
A montadora japonesa não oferece versões híbridas em suas picapes, minivans ou SUVs de maior porte, uma lacuna significativa no mercado atual. A aposta em novos veículos elétricos, como a série Zero e o Acura RSX, foi cancelada recentemente, demonstrando a instabilidade na estratégia da empresa.
Reversão de Estratégia e Perda de Foco em Inovação
A decisão de cancelar modelos elétricos centrais para a estratégia da empresa foi inesperada, segundo analistas. O CEO Toshihiro Mibe tentou reinventar a Honda como potência em motores elétricos até 2040, mas suas metas de vendas de elétricos foram revistas e agora estão em risco.
A Honda manteve sua aposta em elétricos mesmo quando concorrentes como a General Motors começaram a frear seus planos devido à demanda morna. Uma parceria frustrada com a GM já havia dado sinais da demanda instável por elétricos nos EUA, como evidenciado pelas baixas vendas do modelo Prologue EV.
A empresa dobrou a aposta em baterias elétricas no início deste ano, comprando a participação da LG Energy Solution em uma nova fábrica em Ohio, mesmo com Ford e Stellantis se retirando de empreendimentos semelhantes. Essa decisão, contudo, parece ter vindo tarde demais.
Problemas de Gestão e Declínio Gradual de Vendas
A reformulação da Honda inclui a reestruturação organizacional, reunindo o desenvolvimento de veículos sob a unidade de P&D, admitindo uma perda de foco na entrega de carros e caminhonetes inovadores. O declínio gradual da operação automotiva da Honda remonta a mais de uma década, quando a gestão priorizou volume e variedade em detrimento da qualidade do produto e eficiência de capital.
A meta ousada do ex-CEO Takanobu Ito de dobrar as vendas anuais em cinco anos levou a expansão acelerada e a uma série de recalls e lançamentos problemáticos. Embora seu sucessor tenha mudado o foco, a Honda não conseguiu recuperar seu brilho, enquanto rivais como Hyundai e BYD ganhavam mercado.
O volume global de vendas da Honda atingiu seu pico em 2019 e a expectativa para o ano fiscal atual é significativamente menor. Essa posição enfraquecida tornou a empresa mais vulnerável a golpes externos, como tarifas de importação e a deflação de preços na China, onde as vendas caem há 24 meses consecutivos.
O CEO Mibe indicou que mais mudanças virão, com um novo plano de negócios previsto para ser apresentado em maio, junto com os resultados financeiros completos, detalhando a ampla reformulação da estratégia da Honda.
